O campo estendia-se plano até o horizonte, enfileiradas, milhares de caixas de cartas, lembravam um exército de cores e formas, cobertas e alinhadas, distribuídas alfabeticamente com nomes que nunca se repetiam. O silêncio da madrugada era quebrado com tilintar de rodas enferrujadas da bicicleta do eterno carteiro, que rondava o consciente coletivo da humanidade, recolhendo as palavras que nunca foram ditas e as guardava, em envelopes, nas caixas correspondentes aos nomes daqueles que deveriam ouví-las, mas que por razões diversas, essas palavras realmente nunca lhes foram ditas.
Naquela manhã, que chegava cinza como uma anêmica sombra, o carteiro seguia sua rotina, acostumado com as rotas, sabia quem eram os remetentes e destinatários, mas para sua surpresa, nesta manhã havia uma carta de um remetente ainda desconhecido. Precisou apenas ler o nome, pois os nomes possuem esses poderes, e todo conhecimento necessário lhe foi dado. Imagens lhe vieram à mente, um senhor de idade avançada, recolhido em sua insignificância, num canto abandonado de um mal cuidado lar de idosos. Embrulhado em suas cobertas como um cadáver que aguarda o legista, o velho homem segurava uma foto, amassada e repleta de fita adesiva para segurar as partes rasgadas num passado de frustração e lamentos.
Foi quando a lágrima vagou por suas rugas que a carta se fez na bolsa do carteiro. Do outro lado do envelope, tudo em branco. Não havia destinatário. O velho não recordava o nome daquela que lhe sorria na foto rasgada. E pela primeira vez, desde que o tempo se fez na consciência da humanidade, o carteiro não sabia o que fazer. Obcecado por seu trabalho, não poderia parar, nem perder tempo, precisava descobrir. Na dúvida, errou para mais. Abriu a carta. Ousadia que jamais havia experimentado, mas acreditava que nas palavras algumas pistas lhe fossem fornecidas.
Em vão foi seu crime. Mas não havia o que temer, pois nunca o carteiro precisou prestar satisfações a um superior. Desde sempre ele esteve ali, sozinho, repetindo sua sina. Sina essa agora quebrada pela impossibilidade de seguir em frente. Mas o carteiro já conhecia aquelas palavras, eram tão comuns que não havia ser algum no universo que deixou de ouví-las.
O sábio carteiro então, continuou suas pedaladas, levando sua velha bicicleta por entre as ruas daquele imenso cemitério de ideias e sentimentos, e multiplicando a existência da carta, levou para todos os seres as palavras que todos conheciam e muitas vezes deixavam de dizer e ouvir.
Na carta dizia apenas “eu te amo”.




O silêncio foi testemunha da frieza do ato, que mesmo sem impor sua força, intimidava com sua presença. Negar lhe seria impossível, talvez fosse pior. Bastava abrir mão do orgulho, do amor próprio. Aceitar a condição imposta pelo destino. Era como um karma. Estavam predestinados e ele cansou de adiar o momento. Ela sabia o que queria. 