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O Carteiro

Atendimento: Jean Errado | Data de entrega: 06/02/13

Servido com: Absinto, Vinho, Vodka

velho

 

O campo estendia-se plano até o horizonte, enfileiradas, milhares de caixas de cartas, lembravam um exército de cores e formas, cobertas e alinhadas, distribuídas alfabeticamente com nomes que nunca se repetiam. O silêncio da madrugada era quebrado com tilintar de rodas enferrujadas da bicicleta do eterno carteiro, que rondava o consciente coletivo da humanidade, recolhendo as palavras que nunca foram ditas e as guardava, em envelopes, nas caixas correspondentes aos nomes daqueles que deveriam ouví-las, mas que por razões diversas, essas palavras realmente nunca lhes foram ditas.

Naquela manhã, que chegava cinza como uma anêmica sombra, o carteiro seguia sua rotina, acostumado com as rotas, sabia quem eram os remetentes e destinatários, mas para sua surpresa, nesta manhã havia uma carta de um remetente ainda desconhecido. Precisou apenas ler o nome, pois os nomes possuem esses poderes, e todo conhecimento necessário lhe foi dado. Imagens lhe vieram à mente, um senhor de idade avançada, recolhido em sua insignificância, num canto abandonado de um mal cuidado lar de idosos. Embrulhado em suas cobertas como um cadáver que aguarda o legista, o velho homem segurava uma foto, amassada e repleta de fita adesiva para segurar as partes rasgadas num passado de frustração e lamentos.

Foi quando a lágrima vagou por suas rugas que a carta se fez na bolsa do carteiro. Do outro lado do envelope, tudo em branco. Não havia destinatário. O velho não recordava o nome daquela que lhe sorria na foto rasgada. E pela primeira vez, desde que o tempo se fez na consciência da humanidade, o carteiro não sabia o que fazer. Obcecado por seu trabalho, não poderia parar, nem perder tempo, precisava descobrir. Na dúvida, errou para mais. Abriu a carta. Ousadia que jamais havia experimentado, mas acreditava que nas palavras algumas pistas lhe fossem fornecidas.

Em vão foi seu crime. Mas não havia o que temer, pois nunca o carteiro precisou prestar satisfações a um superior. Desde sempre ele esteve ali, sozinho, repetindo sua sina. Sina essa agora quebrada pela impossibilidade de seguir em frente. Mas o carteiro já conhecia aquelas palavras, eram tão comuns que não havia ser algum no universo que deixou de ouví-las.

O sábio carteiro então, continuou suas pedaladas, levando sua velha bicicleta por entre as ruas daquele imenso cemitério de ideias e sentimentos, e multiplicando a existência da carta, levou para todos os seres as palavras que todos conheciam e muitas vezes deixavam de dizer e ouvir.

Na carta dizia apenas “eu te amo”.


Minha Arché

Atendimento: Jean Errado | Data de entrega: 04/02/13

Servido com: Absinto, Vinho

Casal

 

Era uma vez um escritor de contos que publicava suas histórias num blog. Ele ficava acordado até altas horas da madrugada com o notebook no colo, sentado na sua cama, ouvindo baladas românticas do Led Zeppelin enquanto dava vida aos seus personagens. O que ninguém sabia era o fato de que ele escrevia apenas para uma pessoa, apesar dos trinta e poucos visitantes diários do seu blog, apenas uma garota precisava ler. Tudo o que escrevia eram indiretas para ela, uma forma sutil de expressar seu afeto

E a frase ficou inacabada.

“Não isso não ficou bom”, disse o autor, coçando a barba, sentindo os fios brancos que nasciam no queixo.

“Quer que eu faça de novo?” perguntou o personagem, “posso mudar de posição, talvez escrever na mesa e não na cama.”

“Talvez…”, respondeu o autor, pensando sozinho. “Vamos tentar novamente sendo menos melosos!”

Era uma vez um escritor de contos, que publicava tudo o que escrevia num blog de literatura. Ele ficava acordado até de madrugada, sentado em sua escrivaninha, digitando seus contos e dando vida aos seus personagens. O que poucos sabiam era o fato de que ele escrevia apenas para impressionar uma garota, expressando seu afeto por ela indiretamente nas palavras

“Não ainda não é isso” reclamou o autor novamente. “Precisamos de algo diferente…”

“Também acho” concordou o personagem, “está um pouco frio, falta sentimento, falta poesia!”

“Sim, é isso! Poesia!” O autor parecia feliz com a ideia. “Caminhe pelo quarto, agarre a caveira de plástico, como Hamlet, e reflita sobre o quanto a vida lhe parece vazia de sentido sem a presença dela.”

“Não achas que estais exagerando?” O personagem não estava gostando do tom sombrio, “Vai ficar gótico isso, macabro até!”

“Verdade! Não estamos desesperados, estamos apaixonados, é bem diferente. Já sei! Esqueça o notebook, vá para a prancheta, pegue umas folhas e lápis, finja que está desenhando!”

Era uma vez um desenhista de histórias em quadrinhos, que publicava tudo o que desenhava em seus perfis nas redes sociais. Ele ficava horas desenhando sem parar, perdia a noção do tempo e quando se dava conta, passara a noite inteira acordado, rabiscando suas fábulas e dando vida ao seus personagens. Todos seus amigos já sabiam que tudo o que desenhava era para impressionar uma garota, que por sua vez, fingia não perceber que era ela retratada ali em traços simples

“Ficou melhor?” perguntou o autor para o personagem.

“Eu estou gostando!” respondeu sorrindo, “Me lembrou um pouco Ricardo Azevedo, em Um Homem no Sotão!”

“Perfeito, adoro esse livro! Agora, vamos continuar!”


Café

Atendimento: Jean Errado | Data de entrega: 27/08/12

Servido com: Vinho

Encontraram-se finalmente, depois de alguns desencontros, no café, conforme haviam combinado. Apresentações e pré-julgamentos feitos, sentaram-se para tomar café. O vício era mais uma das centenas de afetos que compartilhavam. Eram literalmente um mesmo ser em dois corpos que se encontravam pela primeira vez.

Ele disfarçava a timidez com humor, ela escondia o nervosismo com sarcasmo. Ambos riam muito, e todos em volta olhavam para eles.

- Mas então, você está afim de mim? – Ela perguntou, depois de acumular coragem e sentir-se mais a vontade com o ex-estranho.

- Afim? – Ele respondeu com uma cara feia, mas continuou com uma explicação num tom um pouco mais sério – Afim é uma expressão estranha pra mim agora.

Sua mente voltava no tempo. Ia para um lugar que queria nunca mais visitar. Mas uma última passada por lá era necessária, para ter a certeza que lhe faltava, de que agora estava diante de alguém completamente diferente, completamente única. E continuou sua explicação:

- Antes eu poderia dizer que sim, estou afim, mas hoje, depois de tudo que passei, prefiro afirmar que o que me move é a curiosidade, a incerteza. Sim, eu estou afim de conhecê-la melhor, mas posso garantir que desde já eu torço para que nesse tempo em que nos conhecemos, eu encontre os argumentos que justifiquem aquilo que eu já sinto por você.


Fantasia de Carnaval

Atendimento: Alessandra Boos | Data de entrega: 17/03/12

Servido com: Absinto, Vinho, Vodka

Eu me levantei e abri as portas do guarda-roupa, aquelas roupas não pertenciam a mim, não tinham nada a ver comigo, não diziam nada sobre mim. Olhei os sapatos e também não faziam sentido pra mim. Tomei um banho de água bem quente, mas o sabonete tinha acabado. Acho que não iam se importar se eu pegasse emprestado um pouco desse outro aqui. Usei as roupas que achei mais familiares, peguei uma sacola grande e meti ali dentro todo o resto, exceto duas calças e uma blusa. Alguém me disse que era bom ter mais blusas porque calça a gente podia usar mais vezes, mas a blusa tinha que trocar todo o dia. Mas achei que as calças eram mais minhas do que aquelas blusas. Então peguei as duas calças e só uma blusa. Desci as escadas do prédio e quando começava a caminhar pela avenida, alguém me parou para me vender poemas. Comprei todos e ainda lhe entreguei o saco com as roupas. Percorri a descida num passo vagaroso e vi passar por mim ônibus, rostos, táxis coloridos, árvores e preocupações. Continuei a andar ainda por muito tempo e parei na frente de um prédio largo e antigo. Apertei o interfone. Sinal para entrar. Seu Isaac parecia surpreso, talvez confuso com a minha visita. Mas me serviu chá. E eu lhe servi uma música ao piano. Nós não conversávamos muito, porque não tínhamos sobre o que falar e nunca fomos íntimos. Sozinho. Muito sozinho. As fotos ainda repousavam sobre a mesinha de centro, assim como a sua esposa repousava no cemitério há dois anos. Lavei as xícaras. Fui embora, pegando emprestado um pouco da solidão dele. Ao chegar à rua precisei desviar de algumas pessoas que formavam um amontoado de pompons, lantejoulas e pernas. Foi quando deixei cair os poemas que levava comigo. Uma figura toda em verde, retardatária do grupo brilhante mais à frente percebeu antes do que eu a queda e recolheu aquelas folhas, como gentilmente se recolhe um pequeno pássaro que caiu no chão. Falta gentileza no mundo. As pessoas precisam ser mais gentis umas com as outras. Quantos momentos de gentileza eu havia presenciado recentemente? Verde, a cor de São Patrício. A cor de Oxóssi. Kiss me I´m Irish. Okê arô! O estranho é irresistível, é promessa, é hipnótico. Eu beijaria aquela pessoa desconhecida, entraria em um ônibus sem olhar o destino e talvez não pagasse a passagem. E nesse destino que eu parasse, iria a um lugar bonito e desconhecido, onde eu brincaria com um cachorrinho de rua que ali encontrasse, compraria uma comida e dividiria igualmente com ele, caminharia um pouco, conversaria com os velhos e os bêbados, talvez até jogasse um jogo de cartas com eles ou outro jogo nada a ver e se um deles me oferecesse um lugar para passar a noite, eu aceitaria a sua bondade, diria que não tenho nada e nem ninguém, nem mesmo esse cachorro, dormiria e acordaria. Eu me levantaria, abriria as portas do guarda-roupa, e todas aquelas roupas e sapatos se ajustariam ao meu corpo, as cores exatas, o formato bem proporcionado, elas davam conta até do estado dos meus ânimos, quando eles estivessem elevados, elas cintilariam e quando estivessem em estado de retidão, ficariam em tons de cinza.  O banho seria de banheira numa abundância de óleo e espuma, não haveria frascos suficientes para guardar tantos perfumes. Ninguém diria uma palavra, que dirá conselhos.  Eu subiria até o terraço e lá ficaria lendo poemas a tarde inteira. Quando a campainha tocasse, Isaac e sua esposa também subiriam e comeríamos pedaços de torta com as mãos. Rindo e conversando como amigos muito próximos, assistiríamos ao morrer do sol, enquanto um gato sorrateiramente pularia sobre a mesa e comeria as sobras. E nisso, lá de cima, a gente enxergaria várias pessoas dançando e cantando, todas juntas, ninguém ficou para trás. E a alegria deles era boa de olhar e por isso entrava pelos olhos da gente. E uma vontade de se juntar a eles surgiria. Uma vontade irresistível, hipnótica e promissora. Não há desconhecidos, somos feitos da mesma matéria e sonhos, escutamos as mesmas músicas, acreditamos nos mesmos deuses, falamos as mesmas línguas, pensamos os mesmos pensamentos, amamos com o mesmo ardor. E eu saltaria e o meu salto se transformaria em um vôo. E eu pousaria bem na tua frente, tu vestido de preto. Mas tu me olharias e não pareceria nenhum um pouco surpreso, só dirias: por que tens medo? Não és tu criadora disso tudo? E nos beijaríamos, um beijo seco, mas duradouro.


Lar doce lar

Atendimento: Giovanni Ramos | Data de entrega: 06/02/12

Servido com: Cerveja, Vinho

O relógio de Luciano despertou às 8h15min do sábado com Back in Black, do AC/DC. Nada como um bom e velho rock and roll para começar o final de semana. Pode ser melhor? Sim! Uma bela morena deitada ao seu lado, dormindo profundamente. A noite passada foi de sucesso.

Luciano se levanou da cama e, como um sonambulo, foi direto ao banheiro. Sua rotina diária de sábado tinha uma única diferença. O seu roupão não estava pendurado junto ao box do banheiro, como de costume. Mas quem se importa? Num dia de verão, qual o problema de andar seminu em casa?

Quando chegou a cozinha, um estranhamento. O microondas havia mudado de lugar. Abriu a geladeira e teve outo susto. Luciano SEMPRE deixa, ao menos, duas garrafas de cerveja na porta. Sabe como é, para casos de emergência. Não havia nada. Foi então, quando percebeu que a geladeira não era a mesma. Olhou para o resto da cozinha e a fica caiu. Estava tudo completamente diferente.

Assustado com o que viu na cozinha, Luciano foi direto para o quarto do irmão. Imaginou que podia ser mais uma “aprontada” do adolescente:

- Toninho, que palhaçada é essa? – gritou, batendo na porta.

Ao invés de toninho, um senhor de barba branca, meio careca, aparentando uns 50 anos de idade apareceu no lugar. Apesar da cara de sono, o homem respondeu grosso:

- Que isso, rapaz? Tá maluco? Vocês dois disseram que não beberiam muito ontem à noite.

Luciano pensava estar em um pesadelo. Tudo fora do lugar. Um senhor dormindo no quarto do irmão. Era como se tivesse sido teletransportado para outra dimensão. Voltou correndo ao seu quarto, quando reparou que ele estava todo decorado em rosa, com um poster do Michel Teló na parede:

- Que foi Luciano? Por que desse esse susto no meu pai? – falou a namorada – fica aí no meu quarto que eu vou no banheiro e já volto.

Enquanto esperava no quarto, Luciano enviou uma mensagem do celular para o irmão.

- De novo, mano. De novo.

——-

(uma semana antes)

Olhando para as caixas empilhadas no meio da sala, Luciano não continha as lágrimas. Todos os seus pertences estavam encaixotados, prontos para a viagem. Ele estava sentado no chão do apartamento vazio, triste, esperando o caminhão da mudança. Estava de mudança para um apartamento longe dali. A dona do prédio não quis mais renovar no aluguel. Prefeiriu vender para uma família.

Luciano pegou o celular e ligou para o irmão:

- Toninho. O cara da mudança já tá chegando, mas eu vou esperar a dona do prédio para entregar a chave. Parece que os donos donos já vão dar uma visita hoje.

Uma senhora rabugenta, vestida como um homem que vai para a guerra, entrou no apartamento. Ao lado dela, um um senhor de barba branca, meio careca, aparentando uns 50 anos de idade e uma jovem e bela morena, aparentando 20 anos de idade.

- Este é o Luciano, antigo inquilino. Ele está tirando as últimas coisas hoje. Luciano, estes são Afrânio e Marina, que vão ficar com o apartamento – disse a velha rabugenta.

Luciano mal prestou a a atenção no velho que comprara o apartamento. Seus olhos se fixaram em Marina, que além da beleza, esbanjava simpatia. A moça segurava um o livro A Tempestade, de Willian Shakespeare. Foi a deixa para que o jovem despejado fosse ao ataque.

- Gostas de teatro? Estás sabendo da peça que vai ser apresentada na próxima sexta-feira no teatro? – perguntou.

O tiro foi certeiro. Luciano conseguiu a atenção da jovem e o telefone. Combinou o encontro para a outra sexta-feira. A tristeza de deixar o apartamento foi compensada.


O Fantasma Incendiário do Artista Suicida Apaixonado

Atendimento: Jean Errado | Data de entrega: 05/10/11

Servido com: Absinto, Vinho, Vodka

Há momentos em que a dúvida precede o medo. Foi assim quando o alarme de incêndio disparou. Trote novamente muitos pensaram enquanto se levantavam de suas mesas e curiosamente esticavam seus pescoços pela porta para ver o caos começar a tomar conta dos corredores. O grito agudo de uma mulher chamando por Deus foi mais eficiente do que a campainha elétrica. Logo todos saqueavam suas próprias mesas em arrastões desesperados e corriam para escada e, sem saber, em direção ao fogo.

O desenho estava escondido na parte debaixo da gaveta, quando a água começou a cair do teto, por sorte estava em um envelope plástico. Pensei ter olhado para ele e ver as gotas de água se transformarem em lágrimas que escorriam pelo rosto da musa retratada. Era como se ela me dissesse “não me deixe!”. Eu queria que ela queimasse, e levasse com as cinzas todas as minhas lembranças, mas não conseguia vê-la ser destruída pela água, pelo choro irreal que produziria.

Todos deixaram o escritório, menos o rapaz que ocupava a minha mesa, parecia desesperado em salvar algum arquivo no pendrive e nem me notou. Prestativo, ele ainda apagou a luz quando saiu. Fiquei no escuro, sozinho, debaixo de uma chuva falsa, imaginando com seria segurar o desenho mais uma vez.


Dentro do Possível

Atendimento: Jean Errado | Data de entrega: 14/07/11

Servido com: Absinto, Vinho

Chovia pra caralho. Ele já estava ensopado quando chegou ao ponto de ônibus, mas tudo bem.  A rua estava vazia há alguns minutos, isso era um mau sinal. Engarrafamento no centro da cidade, provavelmente. Teria que esperar sozinho no frio.

Ela, de carro, pegou o caminho mais longo, mas chegou antes, evitando o trânsito. Odiava dirigir na chuva e sempre se lembrava de quando ficou ilhada, com os bueiros entupidos fazendo a água subir rapidamente pela estrada.

Um único carro se aproximava. Não veio do centro, ele pensou. Ela o viu no ponto. Mesmo sabendo que seria estranho, encostou o carro para oferecer carona. Seria o mínimo que ela poderia fazer, depois que ele a ajudou na enxurrada passada. Ele nem se surpreendeu. Aceitou a carona com receio de estar molhando todo o banco do carro. Estava desconfortável. Ela abaixou o som do carro e perguntou:

- E então? Tudo bem contigo?

A resposta demorou para sair, como se as idéias fossem uma espinha grande sendo exprimida, com muita dor.

- Sim, tudo bem sim. Dentro do possível, tudo bem.

O silêncio voltou, apenas ouvia-se a chuva e Paranoid Android tocando no rádio.

- Você já esteve lá? – Ele perguntou.

- Como? Lá onde?

- Dentro do possível? Você já esteve lá dentro?

Ela não entendeu. E ele continuou sem que ela perguntasse o que isso significava.

- É um lugar meio chato. Só tem uma janela, com vista para o mesmo lugar de sempre. O mesmo horizonte, as mesmas casas, mesmas pessoas. Às vezes é bom ir até lá, ficar um tempinho e ter a certeza de que as coisas estão bem. Mas ficar muito tempo lá é ruim. A gente começa a esquecer esse universo de possibilidades que fica em volta e não aparece na janela. É limitante. Estou tentando sair de lá faz um tempo. Quero… Acho que eu quero me arriscar um pouco no impossível.

- Nossa! Tá inspirado! O que quer dizer essa metáfora toda?

- Quer dizer que eu cansei de fazer chover quase todos os dias, só para me encontrar com você.


Contas a receber

Atendimento: Celso Castellen | Data de entrega: 22/02/11

Servido com: Vinho

Aqui estou eu, pelado, sentado nesse quarto escuro olhando pra ela. Ela dorme tão serenamente que parece um anjo. Eu continuo olhando pra ela. Seu desenho é perfeito, suas curvas, seus cabelos. Ela nem imagina o quanto eu estou fodido. Não tenho nem um tostão no bolso, e prometi mundos e fundos pra ela. Falei que iriamos viajar em lua de mel, sairíamos pela costa catarinense, passando de praia em praia comendo frutos do mar com cerveja. Eu queria isso, mesmo. Ai como eu queria. Mas não é bem assim. Trabalhei como um condenado, entregando os trabalhos nos prazos mais apertados possiveis. Mas a resposta é sempre a mesma: “ninguém tem dinheiro… época ruim… bla bla bla de sempre”. Pego meu maço de cigarros, marlboro, e vejo que só tenho mais um. “Puta merda” penso eu. Eu não tenho nem grana pra comprar mais cigarros, que ultimamente, tem sido meu único prazer. Chego perto dela só pra sentir seu cheiro mais um pouco, hum… não faço a mínima ideia do que lhe falar quando ela acordar. Posso falar a verdade, do tipo “olha só, as coisas não sairam como eu planejei e to completamente fodido de grana e tal…” vai que em um mundo apocalíptico, ela diz que me ama, e que o dinheiro não é um problema já que ela é rica pra caralho. Mas não é assim… tipo, ela trabalha pra conseguir a grana dela. Pronto. Nada de riqueza fácil. Eu já vi com que tipo de cara ela sai, e da pra ver que eles tem grana. Na hora que ela acordar e ver que eu não tenho nada de dinheiro, vai ficar puta da vida… vai gritar, espernear, e talvez até chamar o cafetão dela pra me bater como um condenado. Acho que o que melhor posso fazer é me livrar dela.

*******

Meu telefone tocou, era uma amiga pedindo cigarros… Não tive coragem de dizer que não tinha e que tava sem grana, por isso vou levar um troço diferente, ela vai curtir. O que eu tinha pra fazer aqui já era. Bora que a noite é longa e ainda é cedo.


A Torneira

Atendimento: Alessandra Boos | Data de entrega: 07/01/11

Servido com: Cerveja, Vinho

Quem diria que uma torneira poderia decidir o destino da gente.

As pessoas gostam de ficar atribuindo poderes malucos para os objetos, talvez numa desesperada tentativa de passar adiante a responsabilidade de uma escolha, e a consequente culpa se ela for um desastre. E se por um acaso funcionar a tal coisa, seja torneira, xícara ou uma pedra, nasce assim uma relíquia milagrosa.

Mas o nosso amor, Paulo, não precisava de nenhum ato sobrenatural, apenas uma boa e simples conversada humana. E a gente nem foi capaz disso. E quando naquele dia, de carro, nós íamos assinar aquele papelzinho, com direito a testemunhas, advogado e tudo mais, eu hesitei. Disse para você que eu estava nervosa e não sabia por que. E que as coisas estavam ficando sérias demais. Você, tentando controlar a situação, falou que a gente não precisava fazer isso, se eu não quisesse. Como sempre, você colocou nas minhas mãos, o poder de decidir alguma coisa importante pela gente.  Estava cansada, mas repassei mentalmente todos os preparativos que a gente tinha feito nas últimas semanas para chegar ali e eu desistir. Não, não, é que… E não completei a frase. E a angústia crescendo e me espremendo dentro daquele carro, você com aquela cara de cachorro sem dono. Não dava pra respirar e raciocinar ao mesmo tempo. Sai do carro.

Na verdade, eu tinha medo. Medo de que você não fizesse mais a barba toda semana e que eu não pintasse mais as unhas nas sextas-feiras, que a gente fosse ficar em casa vendo TV de noite até morrer de tédio e no dia seguinte acordar mais entediado ainda e recusar mesmo assim todos os convites para sair com os amigos. Medo de que você fosse pro futebol às terças só para não ter que jantar comigo e que quando você chegasse em casa para se deitar, eu fingiria que já estava dormindo e não perguntaria como foi o seu dia. Medo de que eu fosse ficar satisfeita toda vez que tivesse que trabalhar no final de semana e não precisasse dormir em casa.

Mas então naquele dia quando eu desci do carro e você me abraçou, você me pediu para confiar em uma merda de uma torneira quebrada, pois se saísse água era um sinal pra gente ficar junto. Acho que você sempre quis um sinal, um significado nas coisas, uma espécie de credulidade crônica te acometia.

Nós dois ficamos olhando a torneira. Sim, saía ainda água dali, uma água suja e nojenta. Você tinha razão, essa torneira com essa água podre era um sinal. Levou apenas uns segundos para eu entender e resolver o que tinha que ser feito. Só deu tempo de dizer: Eu hein! Agora que ficou sério! Sim, Paulo, é muito sério esse seu problema em ficar transferindo para os outros e agora para objetos a responsabilidade de tomar as rédeas das suas escolhas. Disse que ia pensar na nossa relação, mas a verdade é que cansei. Por favor, pare de ligar para a casa dos meus pais, porque eu não estou lá.

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Esse texto foi um exercício baseado em uma crônica de Luis Fernando Veríssimo, publicada no Jornal Zero Hora em janeiro de 2005.

Disponível em: http://literal.terra.com.br/verissimo/Novidades_Verissimo/Estadao/Mais_hist%F3rias_de_ver%E3o_9_jan_2005.pdf


Passagem

Atendimento: Jean Errado | Data de entrega: 31/08/10

Servido com: Absinto, Tequila, Vinho

O silêncio foi testemunha da frieza do ato, que mesmo sem impor sua força, intimidava com sua presença. Negar lhe seria impossível, talvez fosse pior. Bastava abrir mão do orgulho, do amor próprio. Aceitar a condição imposta pelo destino. Era como um karma. Estavam predestinados e ele cansou de adiar o momento. Ela sabia o que queria.

A madrugada despedia-se da noite. O sol mal anunciava o inferno que viria e os corpos já estavam cobertos de suor. O chão gelado foi perfeito, até a força bruta tomar o lugar daquela curiosidade inocente que havia no primeiro olhar. As costas dela sentiam a dor do cimento, as dele a do movimento.

As mãos secas como foices enferrujadas, cravadas no solo, sustentando esqueléticos braços anêmicos adornados com tribais esquecidas pelos maus tratos do tempo, uniam-se à pluma delicada e perfumada de uma pele até então intocada, por tão sinistra sombra. Na malícia despertada, ela sorria satisfeita. Nada lhe era negado. Poderia ter tudo, mas escolheu ter o nada. Esse que morria a cada investida, desintegrando-se no pó e no suor, dando a vida que lhe fora negada em troca de uma promessa tão vazia e tão insossa como o amor.

Mas o prazer era o fruto dessa improvável união eternamente passageira. Ela, a Vida, sobrevivendo eterna à Morte, que saboreava apenas o final da passagem, um orgasmo infinito de uma ejaculação precoce.

Ao final do ato, ela se desfaz num sono profundo. Ele das cinzas observa a troca de papéis enquanto renasce como uma fênix, rejuvenescido e puro. Ela, cedendo ao tempo acorda nas horas finais para cumprir sua tarefa e na morte violentar com amor a vida que acabara de renascer.

Deus, como um voyer pervertido, apenas assiste.


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