Olho para a direita e vejo mais um motorista tentando fazer um cruzamento ilegal. Ele sabe que o local não é adequado, que existe uma rotatória e um viaduto próximos, mas ele insiste em tentar a conversão à esquerda ali, só porque a via nesse trecho é mais larga. Não por acaso, a ilha de segurança não existe mais. Algum motorista imprudente já destruiu.
Olho para a esquerda e me sinto um velho ranzinza, daqueles que ficam falando mal dos “jovens de hoje em dia”. Lembro dos meus tempos de adolescente. Já fiz esporro e sempre fui de falar alto. Mas eu sabia quando calar a boca. Ô pirralho, eu não quero ouvir a tua conversa, não quero saber se aquela guria vai dar ou não pro teu amigo. O Queens of the Stone Age ajuda, mas não resolve.
Olho para a direita e me inspiro a fotografar. O fim de tarde, o ângulo que vejo a Igreja…dá uma bela foto, daquelas com muitos “likes” no Facebook e “coraçãozinhos” no Instagram. Mas o meu celular não deixa eu fazer uma foto boa de tão longe. Eu ainda não tenho uma câmera boa e mesmo se tivesse, não usaria ela ali. Deixa para lá…
Olho para a esquerda e vejo trabalhadores andando ao meu lado. Eles não fazem o que eu faço, não se vestem como eu (eu continuo parecendo um moleque), eles estão cansados e eu me identifico com eles. Apesar dos transtornos no ambiente, eu me sinto a vontade. O Queens continua a me inspirar.
Olho para a direita e vejo uma pessoa mal vestida caminhando em direção a uma comunidade carente. Por que continuamos sendo preconceituosos? Porque tomamos distâncias dessas pessoas? É uma ato quase natural, mas errado. Eles não são os vilões da história, são as vítimas do verdadeiro vilão, aquele que não nos incomodamos em estar perto. Nós achamos aquilo errado e defendemos a mudança, mas não temos coragem para agir.
Olho para a esquerda e o sujeito me reconhece. Eu não conheço ele, mas ele sabe quem eu sou. Estou ficando famoso? Não, o mundo é pequeno demais, só isso. Só espero que ele goste do que eu escrevo, porque nos últimos dias descobri que umas pessoas que eu nem faço ideia falando mal de mim nas redes sociais. Uma triste constatação: eu gosto disso.
Olho para a direita e fico pensando quando terei um carro. Uma coisa é certa: não será nenhum desses que eu estou vendo, até porque, carro para mim é um meio de locomoção e não um desejo de consumo. Mas é em horas como essa que eu lembro que tudo seria mais rápido de tivesse um.
Olho para a esquerda e mudo de ideia. Não é nada bom, nada prático ficar preso dentro de uma lata cheia de motores, enquanto você pode estar apreciando o mundo em sua volta. As necessidades de locomoção motorizada continuam, mas para outras situações, onde a viagem é longa.
Olho para a direita, caminho e mudo de rota. Posso apreciar o fim de tarde/início de noite da Blumenalha Desvairada (sim BlumenALHA, de canalha). Falo tanto mal desta cidade que não consigo deixar de viver nela. Ah, sim, o Queens já acabou. Já estou no Serj Tankian.
O que eu escrevi acima é uma ficção, mas a realidade é logo ali!
