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A realidade é logo ali

Atendimento: Giovanni Ramos | Data de entrega: 19/05/13

Servido com: Cerveja

Olho para a direita e vejo mais um motorista tentando fazer um cruzamento ilegal. Ele sabe que o local não é adequado, que existe uma rotatória e um viaduto próximos, mas ele insiste em tentar a conversão à esquerda ali, só porque a via nesse trecho é mais larga. Não por acaso, a ilha de segurança não existe mais. Algum motorista imprudente já destruiu.

Olho para a esquerda e me sinto um velho ranzinza, daqueles que ficam falando mal dos “jovens de hoje em dia”. Lembro dos meus tempos de adolescente. Já fiz esporro e sempre fui de falar alto. Mas eu sabia quando calar a boca. Ô pirralho, eu não quero ouvir a tua conversa, não quero saber se aquela guria vai dar ou não pro teu amigo. O Queens of the Stone Age ajuda, mas não resolve.

Olho para a direita e me inspiro a fotografar. O fim de tarde, o ângulo que vejo a Igreja…dá uma bela foto, daquelas com muitos “likes” no Facebook e “coraçãozinhos” no Instagram. Mas o meu celular não deixa eu fazer uma foto boa de tão longe. Eu ainda não tenho uma câmera boa e mesmo se tivesse, não usaria ela ali. Deixa para lá…

Olho para a esquerda e vejo trabalhadores andando ao meu lado. Eles não fazem o que eu faço, não se vestem como eu (eu continuo parecendo um moleque), eles estão cansados e eu me identifico com eles. Apesar dos transtornos no ambiente, eu me sinto a vontade. O Queens continua a me inspirar.

Olho para a direita e vejo uma pessoa mal vestida caminhando em direção a uma comunidade carente. Por que continuamos sendo preconceituosos? Porque tomamos distâncias dessas pessoas? É uma ato quase natural, mas errado. Eles não são os vilões da história, são as vítimas do verdadeiro vilão, aquele que não nos incomodamos em estar perto. Nós achamos aquilo errado e defendemos a mudança, mas não temos coragem para agir.

Olho para a esquerda e o sujeito me reconhece. Eu não conheço ele, mas ele sabe quem eu sou. Estou ficando famoso? Não, o mundo é pequeno demais, só isso. Só espero que ele goste do que eu escrevo, porque nos últimos dias descobri que umas pessoas que eu nem faço ideia falando mal de mim nas redes sociais. Uma triste constatação: eu gosto disso.

Olho para a direita e fico pensando quando terei um carro. Uma coisa é certa: não será nenhum desses que eu estou vendo, até porque, carro para mim é um meio de locomoção e não um desejo de consumo. Mas é em horas como essa que eu lembro que tudo seria mais rápido de tivesse um.

Olho para a esquerda e mudo de ideia. Não é nada bom, nada prático ficar preso dentro de uma lata cheia de motores, enquanto você pode estar apreciando o mundo em sua volta. As necessidades de locomoção motorizada continuam, mas para outras situações, onde a viagem é longa.

Olho para a direita, caminho e mudo de rota. Posso apreciar o fim de tarde/início de noite da Blumenalha Desvairada (sim BlumenALHA, de canalha). Falo tanto mal desta cidade que não consigo deixar de viver nela. Ah, sim, o Queens já acabou. Já estou no Serj Tankian.

O que eu escrevi acima é uma ficção, mas a realidade é logo ali!


Papa M1l Gr4u

Atendimento: Giovanni Ramos | Data de entrega: 12/02/13

Servido com: Cerveja

O conto abaixo não é uma ofensa a uma instituição milenar e sim uma brincadeira com os novos tempos e a internet. O Botequim Literário costuma lançar contos sobre assuntos do momento e o noticiário mundial está com as atenções voltadas ao Vaticano. O autor do conto não é ateu e respeita as instituições religiosas. Considera também, sábia a decisão de Bento XVI de renunciar por não “ter mais forças”. Que a Igreja Católica tenha um novo papa com uma visão mais progressista da humanidade.

Salve salve galerinha de Deus. Meu nome de nascença é João Cláudio das Dores Conjugais, mas agora meu nick é Bento XVII, ou Bento Dz7. Sou o mais jovem papa da história, o primeiro com 30 anos de idade.

Sempre fui católico, fiel a Deus, mas a achava os métodos da igreja muito chaaaaaatos. Como fui escolhido para ser o novo papa, resolvi fazer algumas mudanças radicais, que vocês verão a seguir.

Primeira coisa: Wi-Fi. Não tinha wireless na basílica de São Pedro. Ficava muito #chatiado com isso. Mandei comprar cinco roteadores, para o sinal pegar bem em todos os lugares. Como é que eu ia bloggar? Meu tablet não tem entrada com o cabo ethernet.

Segunda coisa: confessionário virtual. A partir de agora, as paróquias podem montar uma página no facebook para os fieis confessarem seus pecados. É mais fácil responder. Os sermões também mudaram. Precisam ter no máximo, 140 caracteres. Nem preciso explicar porquê, não é brow?

O meu antecessor criou o perfil no twitter. E olha que era um senhor de idade. Moderno ele, não? Comigo no comando, temos twitter, facebook, tumblr, linkedin, google+, skype e tudo mais.

Criei uma conta no instagram. Muito bacana. Coloquei umas fotos de hóstias e taças de vinho. A galera tá curtindo muito. Quero bater uma fotos legais aqui do vaticano e compartilhar com vocês.

As missas mudaram também. Mais mais dinâmicas e tal. E são transmitidas ao vivo para o mundo inteiro. Televisão aberta? Para que? Coloquei no YouTube mesmo, com um hangout do Google+.

Mas é isso aí galera. Eu vou indo porque tem coisa pra caramba para fazer. #PARTIU BASÍLICA DE SÃO PEDRO!


A garota que não parava de ler

Atendimento: Alessandra Boos | Data de entrega: 31/01/13

Servido com: Cerveja

Quando eu tinha seis anos, meu pai foi ao mercado e quando voltou, colocou em cima da mesa uma latinha com rótulo colorido. Como eu tentava ler tudo que via, estiquei logo as mãozinhas e puxei para mim a novidade, estava escrito: achocolatado em pó. Fiz uma careta. Era o procedimento padrão: nunca experimentar comidas novas e muito menos, bebidas com nomes estranhos. Mas dessa vez não foi difícil para os meus pais me convencerem a tomar aquele líquido cheiroso e cremoso, feito de chocolate. Era só uma questão de explicar aquele nome feio na latinha. E não é que era bom?

A mania de ler tudo não desgrudou de mim tão fácil quanto o sucesso de meus pais a me convencerem, com o passar do tempo, a tentar comer isso e aquilo. As primeiras leituras “mais substanciosas”, digamos, foram os gibis da Turma da Mônica e logo depois os livrinhos infanto-juvenis. Quando eu tinha onze anos me tornei sócia da biblioteca municipal da minha cidade natal. Eu já gostava muito de livros nessa época, mas o principal motivo por eu ter me afiliado era bem prático: minha irmã fazia aula de dança na Escolinha de Artes ali do lado e eu tinha que esperá-la junto com a minha mãe durante uma hora, duas vezes por semana. Assim, eu pegava um livro na terça e devolvia na quinta. Na quinta eu pegava outro e devolvia na semana seguinte. A partir de algum momento eu comecei a pegar dois livros na quinta-feira e às vezes três.

Com o passar dos anos tive que diminuir o meu ritmo de leitura; tudo bem, os livros estavam mais complexos e compridos agora, mas quando se tem uma lista deles já escolhida e que tem que ser lida até o dia combinado, parece que fica mais chato, não parece? Concessões também foram feitas na mesa, tomate cru já podia ser comido sem cara feia e chocolate com leite frio era permitido no verão.

Entrei na faculdade, e não foi de Letras e nem de Nutrição, que fique claro, mas de Ciências Biológicas. Mesmo assim, a experimentação com os livros e com a comida continuava: bacalhau ao molho de Saramago, sobremesa de vinho com Poe e Anne Rice, penne ao funghi e Lovecraft, salada de Franz Kafka com Umberto Eco e até lembas do Tolkien. O que não desceu bem foi uma tal vodka Dostoiévski, muito amarga e que deu uma ressaca daquelas.

Por fim, após terminar a faculdade e sobreviver a algumas ressacas e congestões ̶ literárias e culinárias ̶ vim para Porto Alegre fazer mestrado em paleontologia; não resisti e também me inscrevi nesta disciplina do curso de Letras*, pensando em trazer novos temperos para os meus textos acadêmicos e literários. Ainda não cedi totalmente aos supostos encantos da cozinha gaúcha, mas já aprecio um mate acompanhado de um conto do Caio Fernando Abreu!

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*sim, isso foi um texto produzido em uma aula de “Leitura e Produção Textual” em 2010, cuja proposta do primeiro encontro era criar um texto em que @s alun@s se apresentassem à turma.


Lar doce lar

Atendimento: Giovanni Ramos | Data de entrega: 06/02/12

Servido com: Cerveja, Vinho

O relógio de Luciano despertou às 8h15min do sábado com Back in Black, do AC/DC. Nada como um bom e velho rock and roll para começar o final de semana. Pode ser melhor? Sim! Uma bela morena deitada ao seu lado, dormindo profundamente. A noite passada foi de sucesso.

Luciano se levanou da cama e, como um sonambulo, foi direto ao banheiro. Sua rotina diária de sábado tinha uma única diferença. O seu roupão não estava pendurado junto ao box do banheiro, como de costume. Mas quem se importa? Num dia de verão, qual o problema de andar seminu em casa?

Quando chegou a cozinha, um estranhamento. O microondas havia mudado de lugar. Abriu a geladeira e teve outo susto. Luciano SEMPRE deixa, ao menos, duas garrafas de cerveja na porta. Sabe como é, para casos de emergência. Não havia nada. Foi então, quando percebeu que a geladeira não era a mesma. Olhou para o resto da cozinha e a fica caiu. Estava tudo completamente diferente.

Assustado com o que viu na cozinha, Luciano foi direto para o quarto do irmão. Imaginou que podia ser mais uma “aprontada” do adolescente:

- Toninho, que palhaçada é essa? – gritou, batendo na porta.

Ao invés de toninho, um senhor de barba branca, meio careca, aparentando uns 50 anos de idade apareceu no lugar. Apesar da cara de sono, o homem respondeu grosso:

- Que isso, rapaz? Tá maluco? Vocês dois disseram que não beberiam muito ontem à noite.

Luciano pensava estar em um pesadelo. Tudo fora do lugar. Um senhor dormindo no quarto do irmão. Era como se tivesse sido teletransportado para outra dimensão. Voltou correndo ao seu quarto, quando reparou que ele estava todo decorado em rosa, com um poster do Michel Teló na parede:

- Que foi Luciano? Por que desse esse susto no meu pai? – falou a namorada – fica aí no meu quarto que eu vou no banheiro e já volto.

Enquanto esperava no quarto, Luciano enviou uma mensagem do celular para o irmão.

- De novo, mano. De novo.

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(uma semana antes)

Olhando para as caixas empilhadas no meio da sala, Luciano não continha as lágrimas. Todos os seus pertences estavam encaixotados, prontos para a viagem. Ele estava sentado no chão do apartamento vazio, triste, esperando o caminhão da mudança. Estava de mudança para um apartamento longe dali. A dona do prédio não quis mais renovar no aluguel. Prefeiriu vender para uma família.

Luciano pegou o celular e ligou para o irmão:

- Toninho. O cara da mudança já tá chegando, mas eu vou esperar a dona do prédio para entregar a chave. Parece que os donos donos já vão dar uma visita hoje.

Uma senhora rabugenta, vestida como um homem que vai para a guerra, entrou no apartamento. Ao lado dela, um um senhor de barba branca, meio careca, aparentando uns 50 anos de idade e uma jovem e bela morena, aparentando 20 anos de idade.

- Este é o Luciano, antigo inquilino. Ele está tirando as últimas coisas hoje. Luciano, estes são Afrânio e Marina, que vão ficar com o apartamento – disse a velha rabugenta.

Luciano mal prestou a a atenção no velho que comprara o apartamento. Seus olhos se fixaram em Marina, que além da beleza, esbanjava simpatia. A moça segurava um o livro A Tempestade, de Willian Shakespeare. Foi a deixa para que o jovem despejado fosse ao ataque.

- Gostas de teatro? Estás sabendo da peça que vai ser apresentada na próxima sexta-feira no teatro? – perguntou.

O tiro foi certeiro. Luciano conseguiu a atenção da jovem e o telefone. Combinou o encontro para a outra sexta-feira. A tristeza de deixar o apartamento foi compensada.


Uma história alternativa (parte 4)

Atendimento: Giovanni Ramos | Data de entrega: 05/03/11

Servido com: Cerveja, Whisky

O anúncio do jornal era coincidência, o chamado do empresário também. Mas a nova ameaça com certeza não era. Helmuth tinha consciência que prejudicou muita gente financeiramente ao ajudar Wilson. A queima de arquivo no Fórum, quem mais poderia estar envolvido, a não ser o escrivão?

Não conseguiu voltar ao trabalho. Pediu dispensa do dia e foi para casa ler os jornais de dois anos atrás, data do crime financeiro. Iniciou uma triagem de possíveis responsáveis pela ameaça no carro – chegou a três pessoas.

Na quinta-feira, 6 de novembro, não foi trabalhar. Ficou em casa, com medo. Escutou o seu cachorro latir o dia inteiro, como se alguém estivesse vigiando sua casa. Decidiu então, sair da residência e ir até a polícia contar a história.

- Delegado, este bilhete foi colocado no vidro do meu carro ontem à tarde – contou Helmuth.

- Sim, este bilhete é meu. Eu apostei na vitória do Palmeiras sobre o Olímpico, seguindo a sugestão sua, e me ferrei. Eu quero o meu dinheiro de volta – responde o delegado.

- Eu resolvo isso outra hora. Mas continuo com a sensação de estar sendo perseguido. Desde que me acusaram, em 1956, eu ando preocupado.

- Isso é paranóia da tua cabeça. As notícias dos jornais, que te apontavam como culpado, deixaram você assim. Mas a imprensa tem um pouco de razão. Ora, como um escrivão consegue comprar um CARRO?

O alívio por outra confusão se transformou em ameaça após o comentário do delegado. Helmuth jamais poderia comprar um carro e ele sabia que só pode fazer a compra graças à ajuda do empresário Wilson.

Voltou para casa o desespero aumentou. A mulher e a filha, de 5 anos, não estavam em casa. Passou a noite e as duas continuaram fora. Foram elas, seqüestradas? Ou seria mais uma coincidência transformada em paranóia pelo escrivão?

Na sexta-feira, Helmuth voltou ao serviço, e teve um péssimo encontro no caminho. A sua esposa estava na rua, conversando com Carlos Pfaffendorf, um dos empresários atingidos pelo golpe do amigo Wilson. Os dois já se conheciam, mas não conversavam há mais de cinco anos.

- Onde é que você passou a noite? – perguntou Helmuth.

- Na casa da minha mãe, ela estava doente – respondeu a esposa.

- Por que não me avisou? E o que você está fazendo com o Carlos? Ele desconfia de mim desde o caso de 1956.

- Foi não isso que ele me disse? – Quero você longe dele. Fique em casa, com a Clara.

- Você está ficando louco? O que há contigo? Está com medo de tudo, desconfia de todos. O que você andou fazendo para estar assim?

- Até tu vai desconfiar de mim, agora? Já chega! Eu vou para o trabalho!

Um dia sem trabalhar e o serviço ficou acumulado no Fórum. Havia muito que fazer no local. Percebendo que não daria conta do trabalho, Helmuth convenceu o seu chefe a trabalhar no sábado, para resolver as pendências. Aproveitaria o fato de estar sozinho no Fórum para investigar a vida dos seus possíveis inimigos.

Em casa, descobriu que a mulher e filha não dormiriam mais uma noite em casa. Desta vez, a esposa deixou um recado, informando que iria para a casa da mãe. Helmuth não acreditou e decidiu ir até a sogra.

Passava das 22h quando o escrivão chegou a uma pequena casa, próximo da Empresa Karsten. Bateu na porta e ninguém atendeu. Um vizinho ouviu o barulho e foi ver o que estava acontecendo.

- O senhor veio visitar a Dona Gertrudes? – perguntou o vizinho.

- Sim, a minha esposa também – respondeu Helmuth.

- O senhor é casado com a filha dela? Estranho, a Dona Gertrudes disse que visitaria o genro hoje, por isso não ficaria em casa.


Uma história alternativa (parte 3)

Atendimento: Giovanni Ramos | Data de entrega: 02/03/11

Servido com: Cerveja, Whisky

Uma longa viagem de carro por ruas de barro no oeste da cidade e Helmuth chega à distribuidora de bebidas do empresário Wilson McKrescky. O local deveria trazer boas lembranças ao escrivão, mas o medo dos últimos dias inverteu os fatos.

Ao caminhar até a sala de Wilson, Helmuth lembrava o primeiro dia em que esteve no local. Fora convidado para uma queima de arquivo, e por dinheiro eliminou as provas de dívidas e processos do empresário. Os negócios na distribuidora cresceram após a ajuda vinda do Fórum e Wilson eliminou seus concorrentes – alguns com dinheiro, outros de outras formas.

Ao entrar na sala, Helmuth se deparou com um homem, de meia-idade, bem vestido, mas com a barba a fazer, chorando em uma mesa. Wilson se levantou e disse:

- Fui descoberto, Helmuth. É o fim!

- Calma Wilson. Podemos resolver isso – respondeu Helmuth.

- Sim, você vai resolver. Você irá dizer que eu nunca fiz nada, que eu sou um santo.

- Como assim – questionou Helmuth, já desesperado. Wilson olhou para a janela e disse:

- Aí vem. É contigo agora. Estarei escondido no banheiro.

Wilson deixou a sala vazia para Helmuth, que ouviu os passos de alguém se aproximando. Percebeu que era tarde demais para fugir. Seria hoje, o dia de pagar as contas? Estaria ali, a explicação para o medo que tomou conta da sua vida nos últimos dias?

Uma mulher abriu a porta do escritório segurando uma bolsa. Enfurecida, olhou para Helmuth, e perguntou:

- Cadê o canalha do meu marido? Ele acha que eu não sei quem é a vagabunda com quem ele anda saindo?

Alívio total. Wilson sempre teve a fama na cidade de ser canalha. Enfim, uma de suas aventuras noturnas tinha sido descoberta pela esposa. Com a situação sob controle, Helmuth ajudou o amigo empresário e conseguiu convencer a mulher que tudo não passava de um engano – e conseguiu.

Com a situação resolvida, o escrivão deixou o local e pegou o carro para ir para casa. Quando chegou à porta do carro, viu um bilhete colocado junto ao vidro, que dizia:

“Eu quero o meu dinheiro de volta, HELMUTH”
(continua)


Uma história alternativa (parte 2)

Atendimento: Giovanni Ramos | Data de entrega: 28/02/11

Servido com: Cerveja, Whisky

VOCÊ VAI MORRER – DE TANTO RIR, dizia o anúncio da chegada de um circo ao município. Helmuth se sentiu aliviado e deu uma leve risada. Apesar da confusão, ele ainda estava preocupado.

Ao sair do trabalho, voltou a ter a sensação de estar sendo perseguido. Helmuth morava no bairro Bom Retiro e ia até o serviço a pé. Mesmo com as desconfianças, ele preferiu não contar para a família.

A manhã da quarta-feira, 5 de novembro de 1958, começou com trovoada. O escrivão acordou e viu que uma janela de sua casa estava aberta. Questionou o fato a esposa, que jurou ter fechado no dia anterior. Pegadas no terreno atrás da casa reforçavam a tese de invasão durante a noite.

A janela não estava quebrada e por isso, Helmuth decidiu não denunciar o caso à polícia. Chegou tarde ao trabalho e foi informado que alguns homens estavam a sua procura. Eles não quiseram se identificar no Fórum e prometeram voltar outro dia.

Sem saber quem eram os homens, Helmuth deu sinais de desespero. Decidiu almoçar no restaurante mais próximo do trabalho e foi acompanhado de colegas de trabalho. Amedrontado, olhava desconfiado para todas as pessoas que almoçavam no mesmo espaço.

No período da tarde, um funcionário das fábricas de Wilson McKrescky, empresário beneficiado por um ato de Helmuth, procurou o escrivão. Este informou que o chefe precisava falar urgentemente com ele, pois se tratava de uma situação delicadíssima.

Helmuth fez o sinal da cruz e aceitou o convite.
(continua)


Uma história alternativa

Atendimento: Giovanni Ramos | Data de entrega: 27/02/11

Servido com: Cerveja, Whisky

Esse conto começou a ser produzido no final de outubro de 2008, na época em que o Portal Controversas era apenas um blog pessoal. A ideia gerou o conto que publiquei no “Livro doas Metamorfoses”, produzido pelo Sesc em 2009.

—-

Nome sujo, dívidas, processos, tudo passava em sua mão. A profissão rendia um bom salário, porém trazia problemas de relacionamento na sociedade. Produzir atas e documentos não era algo prazeroso. Ficava o dia inteiro em frente à máquina de escrever registrando as manchas negras da população.

A cada dia que passava, Helmuth datilografava novos processos no Fórum de Blumenau. A cidade estava crescendo e 1958 terminava como um ano próspero. Faltavam apenas dois meses e então, o escrivão pegaria férias. Seriam 30 dias para esquecer-se dos problemas que atormentavam sua vida.

Limpar o nome de um grande empresário da cidade, no começo, parecia ser uma boa idéia. E por que não seria? Foi graças a isso que Helmuth pode comprar a sua casa, dar um espaço melhor para sua esposa e filha poderem viver.
Mas ele sabia que essa ajuda traria muitos problemas mais tarde. Ora, o empresário não era nenhum santo e muitos foram prejudicados com o sumiço de documentos no Fórum da cidade.

Helmuth andava preocupado. Passeava na Rua XV de Novembro desconfiado, encarando todas as pessoas. Tinha uma sensação de estar sendo perseguido. Passou a andar mais rápido e não perdia mais tempo no almoço – logo voltava ao trabalho.

Ele abriu o jornal do dia 4 de novembro de 1958 e soube da tentativa de assassinato do empresário que havia ajudado. Ficou ainda mais preocupado. Não leu a matéria até o fim, para não saber se os seus atos indevidos no Fórum tinham influenciado. Foi até as páginas de cultura, onde leu um anúncio que dizia:

VOCÊ VAI MORRER!
(continua)


Por que todo dia não é assim?

Atendimento: Giovanni Ramos | Data de entrega: 08/01/11

Servido com: Cerveja

A luz chegou ao quarto pelas frestas da veneziana. A garota da previsão do tempo me disse ontem à noite que ia chover, mas felizmente ela errou de novo. Não gosto de ver pessoas bonitas falando coisas erradas, porém nada como mais um dia de sol.

Abri a janela para receber a brisa do mar. O vento era mais forte que o esperado. Até pensei que uma trovoada estava à caminho, mesmo que o horário não combinasse com os raios. Mais uma bela manhã de sol no paraíso.

Acordei disposto e não preparei o café da manhã. Fui caminhar na praia, acompanhar o trabalho dos pescadores, que comemoravam mais um dia de fartura.  Sentado nas pedras, olhava o horizonte lembrando do luau que organizamos ontem à noite. É incrível como tudo deu certo, não é verdade?

Uma fogueira ao centro, uma roda de violão, e garrafões de vinho. Todos cantando, jogando conversa fora. Alguns paquerando, namorando….

Voltei perto das 8h e você já estava acordada. Desculpe não ter te chamado para dar uma volta, não queria atrapalhar o seu sono. O jornal da manhã está dizendo que lá na nossa cidade, a temperatura deve ultrapassar os 40 graus. Se isso acontecer aqui também, não haverá problema. Aqui, dá vontade até de respirar…

Por que todo dia não é assim?

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conto inspirado na música abaixo:

Stuart – Mariscal


A Torneira

Atendimento: Alessandra Boos | Data de entrega: 07/01/11

Servido com: Cerveja, Vinho

Quem diria que uma torneira poderia decidir o destino da gente.

As pessoas gostam de ficar atribuindo poderes malucos para os objetos, talvez numa desesperada tentativa de passar adiante a responsabilidade de uma escolha, e a consequente culpa se ela for um desastre. E se por um acaso funcionar a tal coisa, seja torneira, xícara ou uma pedra, nasce assim uma relíquia milagrosa.

Mas o nosso amor, Paulo, não precisava de nenhum ato sobrenatural, apenas uma boa e simples conversada humana. E a gente nem foi capaz disso. E quando naquele dia, de carro, nós íamos assinar aquele papelzinho, com direito a testemunhas, advogado e tudo mais, eu hesitei. Disse para você que eu estava nervosa e não sabia por que. E que as coisas estavam ficando sérias demais. Você, tentando controlar a situação, falou que a gente não precisava fazer isso, se eu não quisesse. Como sempre, você colocou nas minhas mãos, o poder de decidir alguma coisa importante pela gente.  Estava cansada, mas repassei mentalmente todos os preparativos que a gente tinha feito nas últimas semanas para chegar ali e eu desistir. Não, não, é que… E não completei a frase. E a angústia crescendo e me espremendo dentro daquele carro, você com aquela cara de cachorro sem dono. Não dava pra respirar e raciocinar ao mesmo tempo. Sai do carro.

Na verdade, eu tinha medo. Medo de que você não fizesse mais a barba toda semana e que eu não pintasse mais as unhas nas sextas-feiras, que a gente fosse ficar em casa vendo TV de noite até morrer de tédio e no dia seguinte acordar mais entediado ainda e recusar mesmo assim todos os convites para sair com os amigos. Medo de que você fosse pro futebol às terças só para não ter que jantar comigo e que quando você chegasse em casa para se deitar, eu fingiria que já estava dormindo e não perguntaria como foi o seu dia. Medo de que eu fosse ficar satisfeita toda vez que tivesse que trabalhar no final de semana e não precisasse dormir em casa.

Mas então naquele dia quando eu desci do carro e você me abraçou, você me pediu para confiar em uma merda de uma torneira quebrada, pois se saísse água era um sinal pra gente ficar junto. Acho que você sempre quis um sinal, um significado nas coisas, uma espécie de credulidade crônica te acometia.

Nós dois ficamos olhando a torneira. Sim, saía ainda água dali, uma água suja e nojenta. Você tinha razão, essa torneira com essa água podre era um sinal. Levou apenas uns segundos para eu entender e resolver o que tinha que ser feito. Só deu tempo de dizer: Eu hein! Agora que ficou sério! Sim, Paulo, é muito sério esse seu problema em ficar transferindo para os outros e agora para objetos a responsabilidade de tomar as rédeas das suas escolhas. Disse que ia pensar na nossa relação, mas a verdade é que cansei. Por favor, pare de ligar para a casa dos meus pais, porque eu não estou lá.

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Esse texto foi um exercício baseado em uma crônica de Luis Fernando Veríssimo, publicada no Jornal Zero Hora em janeiro de 2005.

Disponível em: http://literal.terra.com.br/verissimo/Novidades_Verissimo/Estadao/Mais_hist%F3rias_de_ver%E3o_9_jan_2005.pdf


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