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Arquivo de

Cale a boca e dirija!

Atendimento: Jean Errado | Data de entrega: 30/04/13

Servido com: Whisky

- A história todo mundo já conhece. O marido velho e rico, obcecado com o trabalho e também com ciumes da jovem esposa, contrata um detetive para vigiá-la, acreditando que ela tem um amante. O detetive descobre que ela é inocente, até ter um caso com ela. A mulher o convence a matar o marido para ficarem juntos e com a grana do velho. O detetive faz o serviço sujo e descobre que a mulher já o traíra também denunciando-o para a polícia. Preso, colocando as ideias no lugar, o detetive saca toda armação. O velho apenas fingiu ser assinado para poder fugir do país com a mulher, deixando uma divida gigantesca para trás e um trouxa na cadeia.

- Então? Qual a novidade?

- A novidade é que a dívida seria com a máfia e eles dariam um jeito de tirar o detetive da cadeia, para que ele pudesse encontrar o velho. A máfia colocaria um outro personagem ao lado do detetive, um assassino profissional, e juntos eles viajariam pelo mundo procurando o velho safado e a sedutora mortal.

- É só isso?

- Como assim, “só”? É brilhante! Daria algumas temporadas! Várias locações! Em cada cidade uma nova treta, novos personagens, o passado do velho sendo revirado…

- Eu me referia à corrida! Vinte reais. Só isso?

- Sim! Deu só vinte reais. Eu disse que do hotel até o porto era perto se não passássemos pelo centro!

- Honesto você! Gostei! Toma cinquenta e pode ficar com o troco!

- Oh! Obrigado patrão! Deixa eu abrir o porta-malas eu te ajudo com a bagagem.

- Não precisa. É só uma mala!

- Tem certeza? Ela parecia pesada…

- Tudo bem! Eu já peguei! Obrigado!

- Ok! Eu que agraceço!

E o taxista foi embora. Vendo o passageiro encolhendo no retrovisor, arrastando a pesada mala até o mar, onde a deixou cair, para afundar nas águas do esquecimento.


A volta do morto-vivo

Atendimento: Jean Errado | Data de entrega: 20/03/13

Servido com: Absinto, Aperitivos

caveira

 

 

“When I emerge, my thoughts converge to you”
- Zombie Eaters, by Faith No More

 

Abraçado na terra que me envolve, mergulhado na aridez do esquecimento de meu nome, tua chuva me desperta, me relembra e faz brotar meus braços num parto sepulcral. Renasço da terra e fito cego o céu de teu nascente. Tuas águas me lavam do passado. Fica para trás, naquela cova imunda, naquele útero seco, toda escuridão de meus medos. Ergo-me na dispersão de minhas ideias, na nuvem de tua chuva que se desfaz e clamo vida à luz de teus Sois. Mas tua chama sagrada me responde com a fome de nossa causa, e me devora, me reduz ao carbono solitário, me converte ao pó da insignificância, que se desfaz no último suspiro de meu mais nobre desejo: vida, permita-me amá-la.


O Carteiro

Atendimento: Jean Errado | Data de entrega: 06/02/13

Servido com: Absinto, Vinho, Vodka

velho

 

O campo estendia-se plano até o horizonte, enfileiradas, milhares de caixas de cartas, lembravam um exército de cores e formas, cobertas e alinhadas, distribuídas alfabeticamente com nomes que nunca se repetiam. O silêncio da madrugada era quebrado com tilintar de rodas enferrujadas da bicicleta do eterno carteiro, que rondava o consciente coletivo da humanidade, recolhendo as palavras que nunca foram ditas e as guardava, em envelopes, nas caixas correspondentes aos nomes daqueles que deveriam ouví-las, mas que por razões diversas, essas palavras realmente nunca lhes foram ditas.

Naquela manhã, que chegava cinza como uma anêmica sombra, o carteiro seguia sua rotina, acostumado com as rotas, sabia quem eram os remetentes e destinatários, mas para sua surpresa, nesta manhã havia uma carta de um remetente ainda desconhecido. Precisou apenas ler o nome, pois os nomes possuem esses poderes, e todo conhecimento necessário lhe foi dado. Imagens lhe vieram à mente, um senhor de idade avançada, recolhido em sua insignificância, num canto abandonado de um mal cuidado lar de idosos. Embrulhado em suas cobertas como um cadáver que aguarda o legista, o velho homem segurava uma foto, amassada e repleta de fita adesiva para segurar as partes rasgadas num passado de frustração e lamentos.

Foi quando a lágrima vagou por suas rugas que a carta se fez na bolsa do carteiro. Do outro lado do envelope, tudo em branco. Não havia destinatário. O velho não recordava o nome daquela que lhe sorria na foto rasgada. E pela primeira vez, desde que o tempo se fez na consciência da humanidade, o carteiro não sabia o que fazer. Obcecado por seu trabalho, não poderia parar, nem perder tempo, precisava descobrir. Na dúvida, errou para mais. Abriu a carta. Ousadia que jamais havia experimentado, mas acreditava que nas palavras algumas pistas lhe fossem fornecidas.

Em vão foi seu crime. Mas não havia o que temer, pois nunca o carteiro precisou prestar satisfações a um superior. Desde sempre ele esteve ali, sozinho, repetindo sua sina. Sina essa agora quebrada pela impossibilidade de seguir em frente. Mas o carteiro já conhecia aquelas palavras, eram tão comuns que não havia ser algum no universo que deixou de ouví-las.

O sábio carteiro então, continuou suas pedaladas, levando sua velha bicicleta por entre as ruas daquele imenso cemitério de ideias e sentimentos, e multiplicando a existência da carta, levou para todos os seres as palavras que todos conheciam e muitas vezes deixavam de dizer e ouvir.

Na carta dizia apenas “eu te amo”.


Minha Arché

Atendimento: Jean Errado | Data de entrega: 04/02/13

Servido com: Absinto, Vinho

Casal

 

Era uma vez um escritor de contos que publicava suas histórias num blog. Ele ficava acordado até altas horas da madrugada com o notebook no colo, sentado na sua cama, ouvindo baladas românticas do Led Zeppelin enquanto dava vida aos seus personagens. O que ninguém sabia era o fato de que ele escrevia apenas para uma pessoa, apesar dos trinta e poucos visitantes diários do seu blog, apenas uma garota precisava ler. Tudo o que escrevia eram indiretas para ela, uma forma sutil de expressar seu afeto

E a frase ficou inacabada.

“Não isso não ficou bom”, disse o autor, coçando a barba, sentindo os fios brancos que nasciam no queixo.

“Quer que eu faça de novo?” perguntou o personagem, “posso mudar de posição, talvez escrever na mesa e não na cama.”

“Talvez…”, respondeu o autor, pensando sozinho. “Vamos tentar novamente sendo menos melosos!”

Era uma vez um escritor de contos, que publicava tudo o que escrevia num blog de literatura. Ele ficava acordado até de madrugada, sentado em sua escrivaninha, digitando seus contos e dando vida aos seus personagens. O que poucos sabiam era o fato de que ele escrevia apenas para impressionar uma garota, expressando seu afeto por ela indiretamente nas palavras

“Não ainda não é isso” reclamou o autor novamente. “Precisamos de algo diferente…”

“Também acho” concordou o personagem, “está um pouco frio, falta sentimento, falta poesia!”

“Sim, é isso! Poesia!” O autor parecia feliz com a ideia. “Caminhe pelo quarto, agarre a caveira de plástico, como Hamlet, e reflita sobre o quanto a vida lhe parece vazia de sentido sem a presença dela.”

“Não achas que estais exagerando?” O personagem não estava gostando do tom sombrio, “Vai ficar gótico isso, macabro até!”

“Verdade! Não estamos desesperados, estamos apaixonados, é bem diferente. Já sei! Esqueça o notebook, vá para a prancheta, pegue umas folhas e lápis, finja que está desenhando!”

Era uma vez um desenhista de histórias em quadrinhos, que publicava tudo o que desenhava em seus perfis nas redes sociais. Ele ficava horas desenhando sem parar, perdia a noção do tempo e quando se dava conta, passara a noite inteira acordado, rabiscando suas fábulas e dando vida ao seus personagens. Todos seus amigos já sabiam que tudo o que desenhava era para impressionar uma garota, que por sua vez, fingia não perceber que era ela retratada ali em traços simples

“Ficou melhor?” perguntou o autor para o personagem.

“Eu estou gostando!” respondeu sorrindo, “Me lembrou um pouco Ricardo Azevedo, em Um Homem no Sotão!”

“Perfeito, adoro esse livro! Agora, vamos continuar!”


Se a vida…

Atendimento: Jean Errado | Data de entrega: 14/01/13

Servido com: Aperitivos

Se a vida gentilmente nos sorrisse,
Como se num estranho visse,
A profundidade de sua alma triste.

Teríamos na crença a fonte de esperança,
Devaneios sublimes da mais pura lembrança
De um sorriso traçado na nova temperança.

Se a vida ofertasse seus braços abertos,
Ao conforto de um belo sonho desperto,
Possibilitando um caminho correto.

Teríamos nas madrugadas todas, veladas,
A carícia do sono perfeito, tão desejada,
E tão real quando a rotina desgraçada.

Se vida sempre me sorrisse, como tal
Sorriso que em mim nunca vistes,
Mas que um dia para mim sorristes,

Teria eu, a alegria pare sempre nascente,
Como um lampejo criativo crescente
De uma paixão eterna em minha mente.


Velório

Atendimento: Jean Errado | Data de entrega: 09/01/13

Servido com: Absinto, Vodka, Whisky

 

Mesmo agora, a Vida parecia ejacular na face serena de Josué. Pareceria, se ele não tivesse montado o espetáculo com antecedência. Josué que arrastou sua sina clamando mudamente para as paredes de pessoas cegas o quanto gostaria de ser o baricentro do universo à sua volta, ironicamente apenas quando morto, confinado em sua última morada, conseguiu se ver cercado de gente.

O velório de Josué reproduzia fielmente os seus dias quando vivo. Parado, silencioso, triste e um tanto vazio. Preenchido apenas por cascas vazias, cujas mentes empoleiravam-se na mesquinharia rotineira e ignoravam o fardo letárgico do defunto, que assistia a cena como quem vê com ansiedade uma pintura mal restaurada.

Sabia, Josué, que havia algo mais. Havia, ao mesmo tempo em que lhes faltava, um sentido maior e revelador. A resposta para a pergunta que nunca foi feita – Por quê? O conformismo silencioso das cascas apenas reforçava a certeza de que ninguém se interessava em saber o motivo, uma certeza profética de que o suicídio de Josué era inevitável. Assim como eram inevitáveis as lágrimas sangradas diariamente, como uma chuva na janela, que Josué exibia como um náufrago disparando um sinalizador em busca de socorro.

Um pedido ignorado, acrescentando peso à causa e peso ao corpo, que como um pêndulo de um relógio catatônico ficou ali no meio da sala, esquecido como um evento banal. Olhos semicerrados fitariam, se estivessem vivos, uma janela com vista para uma rua mergulhada na luz matinal com a falsa promessa de um dia melhor.

Na soleira da janela, mais esquecidas do que o próprio Josué, suas últimas palavras repousavam empoeiradas numa carta, velada pela ausência de leitores, ignorada como o autor, mas que dizia:

“Existi. Por um breve momento, eu existi. Por mais que todos vocês possam negar, eu existi. Mesmo que jamais se prove, ou mesmo que jamais se busquem provas, eu passei por aqui. Passei e deixei minha marca. Uma pequena marca. Não visível por todos, porque é uma marca especial demais. Ela tocaria apenas uma minoria quase tão insignificante, que talvez nunca venha a ser tocada. 

Mas apesar disto, deixarei para todos os demais uma grande marca, visível até os céus, que tocará muitos, com a minha forma de gratidão. Gratidão a todos vocês que me ensinaram muito sobre desprezo e indiferença. 

Mas você que leu esta carta, antes do meu velório, saiba que você foi tocado pela pequena marca e por isso eu lhe imploro, não vá, por favor, ao meu enterro.”

Assim terminava a carta, cujo destino era alertar a única pessoa que Josué se importava, e que para o descanso eterno de sua consciência, felizmente ela também se importava com ele, poupando-lhe assim a vida que por pouco não lhe fora roubada cinematograficamente durante a terrível explosão na capela mortuária em que Josué, o suicída, deixava sua marca, gozando sua vingança no além.


Suicídio

Atendimento: Jean Errado | Data de entrega: 29/11/12

Servido com: Whisky

“Vinte e um de dezembro de dois mil e doze. Sexta-feira, onze e meia da noite e eu ainda me pergunto o que estou fazendo no escritório. Sei bem o que estou fazendo. A história de suicídio não me desceu pela garganta. A cena toda era montada. Era evidente. Mas ninguém no departamento se importava. Eu deveria estar em casa. Minha mulher vai encher o meu saco de novo, pensando que estou com outra. Como diz meu amigo na polícia “a pior parte de ser acusado de infidelidade, é ser inocente”.

Mas voltando ao caso, estou bebendo sobre uma pilha de documentos do quarto do maluco que supostamente se matou. Livros de Erich Von Däniken, desenhos feitos à mão do calendário Maia, artigos de sites sobre o Nibiru, acompanhados de mapas de alinhamentos dos planetas, possíveis órbitas de um tal de Planeta X, anotações sobre inversão dos pólos magnéticos da Terra etc. E uma carta. Suicidas sempre deixam uma carta. Mas essa, não sei porque, foi escrita depois do cara estar pendurado pelo pescoço no ventilador do teto, do quarto daquela kitnet imunda.

A carta confirmava aquele velho ditado que diz que o criminoso sempre volta ao lugar do crime. Quem matou o sujeito, e fez parecer um suicídio, voltará. Eu aposto a minha mãe, que ele voltará. E ainda digo mais. Digo que ele deixou o nome da próxima vítima.

Seco o copo mais uma vez e noto que a garrafa está vazia. As ideias não surgem apesar de estarem na minha cara. Vou pra casa e que se foda. Segunda eu arquivo essa merda se não conseguir provar nada.”

O sujeito apagou a luz e saiu da sala, despediu-se do guardinha e pegou um táxi sob a ameaça de um temporal de verão fora de hora. Sobre sua mesa, aberta, a carta dizia de forma convidativa:

“Bruna, sirva teu fim do mundo com tequila!”

 


Café

Atendimento: Jean Errado | Data de entrega: 27/08/12

Servido com: Vinho

Encontraram-se finalmente, depois de alguns desencontros, no café, conforme haviam combinado. Apresentações e pré-julgamentos feitos, sentaram-se para tomar café. O vício era mais uma das centenas de afetos que compartilhavam. Eram literalmente um mesmo ser em dois corpos que se encontravam pela primeira vez.

Ele disfarçava a timidez com humor, ela escondia o nervosismo com sarcasmo. Ambos riam muito, e todos em volta olhavam para eles.

- Mas então, você está afim de mim? – Ela perguntou, depois de acumular coragem e sentir-se mais a vontade com o ex-estranho.

- Afim? – Ele respondeu com uma cara feia, mas continuou com uma explicação num tom um pouco mais sério – Afim é uma expressão estranha pra mim agora.

Sua mente voltava no tempo. Ia para um lugar que queria nunca mais visitar. Mas uma última passada por lá era necessária, para ter a certeza que lhe faltava, de que agora estava diante de alguém completamente diferente, completamente única. E continuou sua explicação:

- Antes eu poderia dizer que sim, estou afim, mas hoje, depois de tudo que passei, prefiro afirmar que o que me move é a curiosidade, a incerteza. Sim, eu estou afim de conhecê-la melhor, mas posso garantir que desde já eu torço para que nesse tempo em que nos conhecemos, eu encontre os argumentos que justifiquem aquilo que eu já sinto por você.


Dois Tiros

Atendimento: Jean Errado | Data de entrega: 22/11/11

Servido com: Absinto, Whisky

Trouxe as armas? Perguntou o rapaz para o imigrante chinês que estava sentado numa das mesas do salão. O velho oriental fez um lento gesto para que o rapaz sentasse. Impaciente, o garoto continuou de pé. E então, trouxe ou não trouxe? Perguntou mais uma vez, arranhando o encosto da cadeira com as unhas.

Trouxe o dinheiro? Perguntou o velho, com um ar de preocupação. O garoto ajeitou o chapéu e depois tirou um maço de notas de cem do bolso. Está tudo aqui, pode conferir. O chinês nem olhou para o dinheiro. Eu confio em você.

Me deixe vê-las. Exigiu o rapaz empurrando o dinheiro da direção do velho, este então colocou sobre a mesa uma pequena caixa de madeira. Ainda há tempo, você sabe, o xerife deve voltar logo. Você não precisa fazer isso. Disse o senhor abrindo a caixa e removendo um pedaço de veludo que ocultava dois revólveres. O rapaz suspirou. Mas eu preciso.

As duas armas eram quase idênticas, mas uma possuía um cabo branco e a outra um cabo negro. Estavam dispostas na caixa, entre o pano, como o símbolo do Tao, o Yin e Yang.  E o homem chinês começou a explicar a diferença além das aparências.

Essas são as armas do homem honesto e do homem corrupto. Ambas nunca erram seus tiros, mas só podem ser utilizadas da seguinte forma. A branca, jamais funcionará ao dar um tiro pelas costas de alguém. Já a negra, só acertará uma pessoa se o tiro for pelas costas.

As regras pareciam ser simples. O garoto as pegou e foi para rua aguardar o rival que o desafiara para um duelo. As horas passaram e o algoz chegou, como o combinado. Trouxe as armas garoto? Sim, eu trouxe, escolha uma delas.

O vaqueiro pegou ambas e as estudou. Parecem boas pistolas. Carregue a sua e vamos logo acabar com isso. Disse o homem escolhendo a arma de cabo branco.

No momento do duelo, o rapaz ficou de costas para o rival, sabendo que arma branca não funcionaria. Aconteceu que o vaqueiro não atirou, sua honra não permitiria atirar em alguém pelas costas. Aguardou o rapaz enfrentá-lo de frente. Mas o jovem também não poderia disparar a sua arma até que o rival desistisse e fosse embora.

 
Lovett – Ghost of Old Highway


O Fantasma Incendiário do Artista Suicida Apaixonado

Atendimento: Jean Errado | Data de entrega: 05/10/11

Servido com: Absinto, Vinho, Vodka

Há momentos em que a dúvida precede o medo. Foi assim quando o alarme de incêndio disparou. Trote novamente muitos pensaram enquanto se levantavam de suas mesas e curiosamente esticavam seus pescoços pela porta para ver o caos começar a tomar conta dos corredores. O grito agudo de uma mulher chamando por Deus foi mais eficiente do que a campainha elétrica. Logo todos saqueavam suas próprias mesas em arrastões desesperados e corriam para escada e, sem saber, em direção ao fogo.

O desenho estava escondido na parte debaixo da gaveta, quando a água começou a cair do teto, por sorte estava em um envelope plástico. Pensei ter olhado para ele e ver as gotas de água se transformarem em lágrimas que escorriam pelo rosto da musa retratada. Era como se ela me dissesse “não me deixe!”. Eu queria que ela queimasse, e levasse com as cinzas todas as minhas lembranças, mas não conseguia vê-la ser destruída pela água, pelo choro irreal que produziria.

Todos deixaram o escritório, menos o rapaz que ocupava a minha mesa, parecia desesperado em salvar algum arquivo no pendrive e nem me notou. Prestativo, ele ainda apagou a luz quando saiu. Fiquei no escuro, sozinho, debaixo de uma chuva falsa, imaginando com seria segurar o desenho mais uma vez.


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