Transcrição da sessão de hipnose conduzida pela Dra. Butler em 14 de fevereiro de 1970. Prontuário 663-56/70.
(B) O que você está vendo, Toni? Onde você está?
(T) Tem chuva e está escuro… Não sei que lugar é esse, mas é frio, muito frio. Está escuro, mas dá pra ver que as árvores também são escuras e todas retorcidas, uma coisa horrenda. Há pássaros também pretos e empoleirados nos galhos. Alguns estão no chão, escondidos entre as raízes mais grossas, um tronco vazio…
(pequena pausa)
(T) O chão é cinzento, há pedras, folhas, capim alto… capim…flores… flores cor de sangue… parecem papoulas.
(silêncio prolongado)
(B) Toni? Você está aí? Você consegue ver algo mais?
(T) Sim, estou aqui, mas acho que estou tendo uma bad trip… O ácido foi forte aquele dia. Ou era de noite? Eu não tenho certeza… Era coisa boa, disseram que tinha vindo de Ibiza, e por isso eu e o Bill dividimos… Depois o Bill quis mais, ele disse que não dava nem pro cheiro aquele ácido, e…
(tosse)
(engasga)
(enfermeiro Osbourne realiza procedimento para desengasgar o paciente)
(B) Toni… Vamos continuar?
(T) Sim…
(B) Você está sozinho?
(T) Sim. Os outros ficaram por causa do sabá… Eles respeitam o costume.
(B) E por que você não ficou com eles? Você não é judeu também?
(T) Sim, mas eu queria fazer algo… diferente.
(B) Como assim diferente? Explique.
(T) Eu queria ser o cara bacana da turma pelo menos uma vez na minha vida…
(paciente faz uma longa inspiração)
(B) Tudo bem, Toni. Respire, concentre-se e me avise quando estiver pronto novamente.
(longa pausa)
(T) Pronto.
(B) Você me disse que estava em um lugar escuro com árvores escuras e retorcidas, mas que olhou para o chão e nele havia um mato alto. O que você consegue ver através do capim?
(T) O capim nem era tão alto assim. Há uma coisa pegajosa e verde no chão, nas minhas botas, nas pedras e neles…
(B) Neles quem?
(T) Neles…
(B) Neles quem?
(T) Nos coelhos…
(B) Descreva-os para mim.
(T) Eles estão mortos. Estão presos na armadilha, pobrezinhos… Já nasceram mortos.
(B) Como você sabe que eles estão mortos?
(T) Porque está tudo quieto.
(B) E os pássaros que estão nas árvores e no chão? Não fazem barulho? E a chuva?
(T) Os pássaros não querem cantar, eles desviam o olhar dos mortos. A cena é horrível mesmo para eles, acostumados a chafurdar nas vísceras alheias. Mas a chuva continua a cair. E os coelhos mortos.
(B) Você consegue ver mais algum animal?
(T) Um cisne preto. (lacônico)
(B) Onde está o cisne?
(T) No lago. (lacônico)
(B) Como é o lago?
(T) Pequeno e escuro, mas não dá pra ver direito, por causa da névoa que sai dele.
(B) Este lago é o mesmo lago do desenho que você fez quando chegou aqui?
(T) Pode ser…
(B) Por que você não tem certeza?
(T) Por causa da névoa. Está tudo meio branco agora, essa fumaça se espalha muito rápida e está ficando mais e mais escuro, é quase noite.
(B) E se eu dissesse que você consegue ver o que há ao redor do lago porque você tem uma lanterna? O que você vê?
(T) Uma lanterna… Sim, deve ser a lanterna do Bill… Mas eu não sei se eu quero ver o que tem lá. Me dá medo, há algo sinistro no ar, eu não sei explicar, é como se lá fosse mais frio que o resto da floresta, como se o tempo inteiro algo fosse acontecer, um barulho fosse acabar com aquele silêncio todo, alguém fosse chegar… ou morrer… Esse lugar é mal, amaldiçoado, Deus me livre, não volto nunca mais aqui. Por favor, me deixe ir embora!
(B) Mais um pouco, Toni. Você está indo muito bem. Foi mais longe do que na nossa última exploração. Eu sei que você é um rapaz forte e corajoso, e por isso, conseguirá prosseguir. Diga-me o que há perto do lago e iremos embora.
(T) Névoa branca, muito branca e macia, posso senti-la no meu rosto, tocando os meus braços, me envolvendo e me arrepiando todo.
(paciente começa a tremer)
(T) A fumaça se desloca para o alto e vai dar nos pés de uma estátua sem cabeça. Alguém importante que fez algo que ninguém mais lembra. Alguém antigo. A floresta também é antiga, mas maldosa. O mártir é apenas ingênuo. Agora a noite vem, vem como se eu mergulhasse numa cascata de escuridão. A lanterna não está funcionando muito bem, justo agora que eu mais precisava dela. Não sei como vou voltar para o acampamento. Está ficando escuro. Mas veja, mesmo assim, tem uma garota ali. Eu não sei se ela me viu, eu acho que não. Ela fica ali parada, toda de preto, na chuva e no escuro. Agora um sino distante começa a dobrar. A garota sorri. Mas há algo de errado com ela. Não… não… Não pode ser. Meu Deus! Rápido, vamos sair daqui, tem algo de muito errado, ai meu Deus, socorro, me tirem daqui, por favor, me ajudem, por favor…….
(paciente começa a gritar e a repetir os pedidos de ajuda)
(enfermeiro Osbourne tenta conter o paciente, enquanto a doutora Butler tenta fazer o paciente voltar do estado de transe)
(gritos)
(os procedimentos falharam)
_________________
Conto inspirado na capa do álbum de estreia da banda inglesa Black Sabbath.
