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Arquivo de

Sabá negro

Atendimento: Alessandra Boos | Data de entrega: 14/02/13

Servido com: Vodka

Transcrição da sessão de hipnose conduzida pela Dra. Butler em 14 de fevereiro de 1970. Prontuário 663-56/70.

(B) O que você está vendo, Toni? Onde você está?
(T) Tem chuva e está escuro… Não sei que lugar é esse, mas é frio, muito frio. Está escuro, mas dá pra ver que as árvores também são escuras e todas retorcidas, uma coisa horrenda. Há pássaros também pretos e empoleirados nos galhos. Alguns estão no chão, escondidos entre as raízes mais grossas, um tronco vazio…
(pequena pausa)
(T) O chão é cinzento, há pedras, folhas, capim alto… capim…flores… flores cor de sangue… parecem papoulas.
(silêncio prolongado)
(B) Toni? Você está aí? Você consegue ver algo mais?
(T) Sim, estou aqui, mas acho que estou tendo uma bad trip… O ácido foi forte aquele dia. Ou era de noite? Eu não tenho certeza… Era coisa boa, disseram que tinha vindo de Ibiza, e por isso eu e o Bill dividimos… Depois o Bill quis mais, ele disse que não dava nem pro cheiro aquele ácido, e…
(tosse)
(engasga)
(enfermeiro Osbourne realiza procedimento para desengasgar o paciente)
(B) Toni… Vamos continuar?
(T) Sim…
(B) Você está sozinho?
(T) Sim. Os outros ficaram por causa do sabá… Eles respeitam o costume.
(B) E por que você não ficou com eles? Você não é judeu também?
(T) Sim, mas eu queria fazer algo… diferente.
(B) Como assim diferente? Explique.
(T) Eu queria ser o cara bacana da turma pelo menos uma vez na minha vida…
(paciente faz uma longa inspiração)
(B) Tudo bem, Toni. Respire, concentre-se e me avise quando estiver pronto novamente.
(longa pausa)
(T) Pronto.
(B) Você me disse que estava em um lugar escuro com árvores escuras e retorcidas, mas que olhou para o chão e nele havia um mato alto. O que você consegue ver através do capim?
(T) O capim nem era tão alto assim. Há uma coisa pegajosa e verde no chão, nas minhas botas, nas pedras e neles…
(B) Neles quem?
(T) Neles…
(B) Neles quem?
(T) Nos coelhos…
(B) Descreva-os para mim.
(T) Eles estão mortos. Estão presos na armadilha, pobrezinhos… Já nasceram mortos.
(B) Como você sabe que eles estão mortos?
(T) Porque está tudo quieto.
(B) E os pássaros que estão nas árvores e no chão? Não fazem barulho? E a chuva?
(T) Os pássaros não querem cantar, eles desviam o olhar dos mortos. A cena é horrível mesmo para eles, acostumados a chafurdar nas vísceras alheias. Mas a chuva continua a cair. E os coelhos mortos.
(B) Você consegue ver mais algum animal?
(T) Um cisne preto. (lacônico)
(B) Onde está o cisne?
(T) No lago. (lacônico)
(B) Como é o lago?
(T) Pequeno e escuro, mas não dá pra ver direito, por causa da névoa que sai dele.
(B) Este lago é o mesmo lago do desenho que você fez quando chegou aqui?
(T) Pode ser…
(B) Por que você não tem certeza?
(T) Por causa da névoa. Está tudo meio branco agora, essa fumaça se espalha muito rápida e está ficando mais e mais escuro, é quase noite.
(B) E se eu dissesse que você consegue ver o que há ao redor do lago porque você tem uma lanterna? O que você vê?
(T) Uma lanterna… Sim, deve ser a lanterna do Bill… Mas eu não sei se eu quero ver o que tem lá. Me dá medo, há algo sinistro no ar, eu não sei explicar, é como se lá fosse mais frio que o resto da floresta, como se o tempo inteiro algo fosse acontecer, um barulho fosse acabar com aquele silêncio todo, alguém fosse chegar… ou morrer… Esse lugar é mal, amaldiçoado, Deus me livre, não volto nunca mais aqui. Por favor, me deixe ir embora!
(B) Mais um pouco, Toni. Você está indo muito bem. Foi mais longe do que na nossa última exploração. Eu sei que você é um rapaz forte e corajoso, e por isso, conseguirá prosseguir. Diga-me o que há perto do lago e iremos embora.
(T) Névoa branca, muito branca e macia, posso senti-la no meu rosto, tocando os meus braços, me envolvendo e me arrepiando todo.
(paciente começa a tremer)
(T) A fumaça se desloca para o alto e vai dar nos pés de uma estátua sem cabeça. Alguém importante que fez algo que ninguém mais lembra. Alguém antigo. A floresta também é antiga, mas maldosa. O mártir é apenas ingênuo. Agora a noite vem, vem como se eu mergulhasse numa cascata de escuridão. A lanterna não está funcionando muito bem, justo agora que eu mais precisava dela. Não sei como vou voltar para o acampamento. Está ficando escuro. Mas veja, mesmo assim, tem uma garota ali. Eu não sei se ela me viu, eu acho que não. Ela fica ali parada, toda de preto, na chuva e no escuro. Agora um sino distante começa a dobrar. A garota sorri. Mas há algo de errado com ela. Não… não… Não pode ser. Meu Deus! Rápido, vamos sair daqui, tem algo de muito errado, ai meu Deus, socorro, me tirem daqui, por favor, me ajudem, por favor…….

(paciente começa a gritar e a repetir os pedidos de ajuda)

(enfermeiro Osbourne tenta conter o paciente, enquanto a doutora Butler tenta fazer o paciente voltar do estado de transe)

(gritos)

(os procedimentos falharam)

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Conto inspirado na capa do álbum de estreia da banda inglesa Black Sabbath.


A garota que não parava de ler

Atendimento: Alessandra Boos | Data de entrega: 31/01/13

Servido com: Cerveja

Quando eu tinha seis anos, meu pai foi ao mercado e quando voltou, colocou em cima da mesa uma latinha com rótulo colorido. Como eu tentava ler tudo que via, estiquei logo as mãozinhas e puxei para mim a novidade, estava escrito: achocolatado em pó. Fiz uma careta. Era o procedimento padrão: nunca experimentar comidas novas e muito menos, bebidas com nomes estranhos. Mas dessa vez não foi difícil para os meus pais me convencerem a tomar aquele líquido cheiroso e cremoso, feito de chocolate. Era só uma questão de explicar aquele nome feio na latinha. E não é que era bom?

A mania de ler tudo não desgrudou de mim tão fácil quanto o sucesso de meus pais a me convencerem, com o passar do tempo, a tentar comer isso e aquilo. As primeiras leituras “mais substanciosas”, digamos, foram os gibis da Turma da Mônica e logo depois os livrinhos infanto-juvenis. Quando eu tinha onze anos me tornei sócia da biblioteca municipal da minha cidade natal. Eu já gostava muito de livros nessa época, mas o principal motivo por eu ter me afiliado era bem prático: minha irmã fazia aula de dança na Escolinha de Artes ali do lado e eu tinha que esperá-la junto com a minha mãe durante uma hora, duas vezes por semana. Assim, eu pegava um livro na terça e devolvia na quinta. Na quinta eu pegava outro e devolvia na semana seguinte. A partir de algum momento eu comecei a pegar dois livros na quinta-feira e às vezes três.

Com o passar dos anos tive que diminuir o meu ritmo de leitura; tudo bem, os livros estavam mais complexos e compridos agora, mas quando se tem uma lista deles já escolhida e que tem que ser lida até o dia combinado, parece que fica mais chato, não parece? Concessões também foram feitas na mesa, tomate cru já podia ser comido sem cara feia e chocolate com leite frio era permitido no verão.

Entrei na faculdade, e não foi de Letras e nem de Nutrição, que fique claro, mas de Ciências Biológicas. Mesmo assim, a experimentação com os livros e com a comida continuava: bacalhau ao molho de Saramago, sobremesa de vinho com Poe e Anne Rice, penne ao funghi e Lovecraft, salada de Franz Kafka com Umberto Eco e até lembas do Tolkien. O que não desceu bem foi uma tal vodka Dostoiévski, muito amarga e que deu uma ressaca daquelas.

Por fim, após terminar a faculdade e sobreviver a algumas ressacas e congestões ̶ literárias e culinárias ̶ vim para Porto Alegre fazer mestrado em paleontologia; não resisti e também me inscrevi nesta disciplina do curso de Letras*, pensando em trazer novos temperos para os meus textos acadêmicos e literários. Ainda não cedi totalmente aos supostos encantos da cozinha gaúcha, mas já aprecio um mate acompanhado de um conto do Caio Fernando Abreu!

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*sim, isso foi um texto produzido em uma aula de “Leitura e Produção Textual” em 2010, cuja proposta do primeiro encontro era criar um texto em que @s alun@s se apresentassem à turma.


Fantasia de Carnaval

Atendimento: Alessandra Boos | Data de entrega: 17/03/12

Servido com: Absinto, Vinho, Vodka

Eu me levantei e abri as portas do guarda-roupa, aquelas roupas não pertenciam a mim, não tinham nada a ver comigo, não diziam nada sobre mim. Olhei os sapatos e também não faziam sentido pra mim. Tomei um banho de água bem quente, mas o sabonete tinha acabado. Acho que não iam se importar se eu pegasse emprestado um pouco desse outro aqui. Usei as roupas que achei mais familiares, peguei uma sacola grande e meti ali dentro todo o resto, exceto duas calças e uma blusa. Alguém me disse que era bom ter mais blusas porque calça a gente podia usar mais vezes, mas a blusa tinha que trocar todo o dia. Mas achei que as calças eram mais minhas do que aquelas blusas. Então peguei as duas calças e só uma blusa. Desci as escadas do prédio e quando começava a caminhar pela avenida, alguém me parou para me vender poemas. Comprei todos e ainda lhe entreguei o saco com as roupas. Percorri a descida num passo vagaroso e vi passar por mim ônibus, rostos, táxis coloridos, árvores e preocupações. Continuei a andar ainda por muito tempo e parei na frente de um prédio largo e antigo. Apertei o interfone. Sinal para entrar. Seu Isaac parecia surpreso, talvez confuso com a minha visita. Mas me serviu chá. E eu lhe servi uma música ao piano. Nós não conversávamos muito, porque não tínhamos sobre o que falar e nunca fomos íntimos. Sozinho. Muito sozinho. As fotos ainda repousavam sobre a mesinha de centro, assim como a sua esposa repousava no cemitério há dois anos. Lavei as xícaras. Fui embora, pegando emprestado um pouco da solidão dele. Ao chegar à rua precisei desviar de algumas pessoas que formavam um amontoado de pompons, lantejoulas e pernas. Foi quando deixei cair os poemas que levava comigo. Uma figura toda em verde, retardatária do grupo brilhante mais à frente percebeu antes do que eu a queda e recolheu aquelas folhas, como gentilmente se recolhe um pequeno pássaro que caiu no chão. Falta gentileza no mundo. As pessoas precisam ser mais gentis umas com as outras. Quantos momentos de gentileza eu havia presenciado recentemente? Verde, a cor de São Patrício. A cor de Oxóssi. Kiss me I´m Irish. Okê arô! O estranho é irresistível, é promessa, é hipnótico. Eu beijaria aquela pessoa desconhecida, entraria em um ônibus sem olhar o destino e talvez não pagasse a passagem. E nesse destino que eu parasse, iria a um lugar bonito e desconhecido, onde eu brincaria com um cachorrinho de rua que ali encontrasse, compraria uma comida e dividiria igualmente com ele, caminharia um pouco, conversaria com os velhos e os bêbados, talvez até jogasse um jogo de cartas com eles ou outro jogo nada a ver e se um deles me oferecesse um lugar para passar a noite, eu aceitaria a sua bondade, diria que não tenho nada e nem ninguém, nem mesmo esse cachorro, dormiria e acordaria. Eu me levantaria, abriria as portas do guarda-roupa, e todas aquelas roupas e sapatos se ajustariam ao meu corpo, as cores exatas, o formato bem proporcionado, elas davam conta até do estado dos meus ânimos, quando eles estivessem elevados, elas cintilariam e quando estivessem em estado de retidão, ficariam em tons de cinza.  O banho seria de banheira numa abundância de óleo e espuma, não haveria frascos suficientes para guardar tantos perfumes. Ninguém diria uma palavra, que dirá conselhos.  Eu subiria até o terraço e lá ficaria lendo poemas a tarde inteira. Quando a campainha tocasse, Isaac e sua esposa também subiriam e comeríamos pedaços de torta com as mãos. Rindo e conversando como amigos muito próximos, assistiríamos ao morrer do sol, enquanto um gato sorrateiramente pularia sobre a mesa e comeria as sobras. E nisso, lá de cima, a gente enxergaria várias pessoas dançando e cantando, todas juntas, ninguém ficou para trás. E a alegria deles era boa de olhar e por isso entrava pelos olhos da gente. E uma vontade de se juntar a eles surgiria. Uma vontade irresistível, hipnótica e promissora. Não há desconhecidos, somos feitos da mesma matéria e sonhos, escutamos as mesmas músicas, acreditamos nos mesmos deuses, falamos as mesmas línguas, pensamos os mesmos pensamentos, amamos com o mesmo ardor. E eu saltaria e o meu salto se transformaria em um vôo. E eu pousaria bem na tua frente, tu vestido de preto. Mas tu me olharias e não pareceria nenhum um pouco surpreso, só dirias: por que tens medo? Não és tu criadora disso tudo? E nos beijaríamos, um beijo seco, mas duradouro.


A Torneira

Atendimento: Alessandra Boos | Data de entrega: 07/01/11

Servido com: Cerveja, Vinho

Quem diria que uma torneira poderia decidir o destino da gente.

As pessoas gostam de ficar atribuindo poderes malucos para os objetos, talvez numa desesperada tentativa de passar adiante a responsabilidade de uma escolha, e a consequente culpa se ela for um desastre. E se por um acaso funcionar a tal coisa, seja torneira, xícara ou uma pedra, nasce assim uma relíquia milagrosa.

Mas o nosso amor, Paulo, não precisava de nenhum ato sobrenatural, apenas uma boa e simples conversada humana. E a gente nem foi capaz disso. E quando naquele dia, de carro, nós íamos assinar aquele papelzinho, com direito a testemunhas, advogado e tudo mais, eu hesitei. Disse para você que eu estava nervosa e não sabia por que. E que as coisas estavam ficando sérias demais. Você, tentando controlar a situação, falou que a gente não precisava fazer isso, se eu não quisesse. Como sempre, você colocou nas minhas mãos, o poder de decidir alguma coisa importante pela gente.  Estava cansada, mas repassei mentalmente todos os preparativos que a gente tinha feito nas últimas semanas para chegar ali e eu desistir. Não, não, é que… E não completei a frase. E a angústia crescendo e me espremendo dentro daquele carro, você com aquela cara de cachorro sem dono. Não dava pra respirar e raciocinar ao mesmo tempo. Sai do carro.

Na verdade, eu tinha medo. Medo de que você não fizesse mais a barba toda semana e que eu não pintasse mais as unhas nas sextas-feiras, que a gente fosse ficar em casa vendo TV de noite até morrer de tédio e no dia seguinte acordar mais entediado ainda e recusar mesmo assim todos os convites para sair com os amigos. Medo de que você fosse pro futebol às terças só para não ter que jantar comigo e que quando você chegasse em casa para se deitar, eu fingiria que já estava dormindo e não perguntaria como foi o seu dia. Medo de que eu fosse ficar satisfeita toda vez que tivesse que trabalhar no final de semana e não precisasse dormir em casa.

Mas então naquele dia quando eu desci do carro e você me abraçou, você me pediu para confiar em uma merda de uma torneira quebrada, pois se saísse água era um sinal pra gente ficar junto. Acho que você sempre quis um sinal, um significado nas coisas, uma espécie de credulidade crônica te acometia.

Nós dois ficamos olhando a torneira. Sim, saía ainda água dali, uma água suja e nojenta. Você tinha razão, essa torneira com essa água podre era um sinal. Levou apenas uns segundos para eu entender e resolver o que tinha que ser feito. Só deu tempo de dizer: Eu hein! Agora que ficou sério! Sim, Paulo, é muito sério esse seu problema em ficar transferindo para os outros e agora para objetos a responsabilidade de tomar as rédeas das suas escolhas. Disse que ia pensar na nossa relação, mas a verdade é que cansei. Por favor, pare de ligar para a casa dos meus pais, porque eu não estou lá.

_______________

Esse texto foi um exercício baseado em uma crônica de Luis Fernando Veríssimo, publicada no Jornal Zero Hora em janeiro de 2005.

Disponível em: http://literal.terra.com.br/verissimo/Novidades_Verissimo/Estadao/Mais_hist%F3rias_de_ver%E3o_9_jan_2005.pdf


o quadro

Atendimento: Alessandra Boos | Data de entrega: 16/07/10

Servido com: Cerveja

Quando Pietra me procurou aquela noite depois que o botequim fechou, nada se passava na tela que é a minha mente. Mas o que ela me trazia era um problema digamos que pertinente às artes visuais. Nós não éramos estranhas uma para a outra, mas há algum tempo não nos víamos ou nos falávamos. Cansei de andar na rua e encontrar alguém que já foi um amigo e que agora, acena do outro lado, como se felizes desconhecidos fossemos. Cansei de encontrar e não de acenar. Por muito tempo ficava frustrada e não entendia porque não podíamos nos abraçar e conversar normalmente como da última vez que tínhamos nos visto, cinco, dez ou quinze anos passados. Não, não podia. Espontaneidade é algo que pertence somente àqueles que ainda são inocentes, que desconhecem o rancor e a mágoa e que não são adultos, bem resolvidos, casados e funcionários do mês. Não era o meu caso e também já estava acostumada com a apatia alheia. Pietra não precisou abrir a boca pra eu perceber o desespero que sentia. Se fosse um cliente habitual teria servido um conhaque barato que a faria esquecer de quem era pelos próximos dois dias. Antes de eu continuar a divagar o que seria mais apropriado beber, ela já estava me falando do marido. Que prazer sórdido sentem as casadas em procurar as solteiras para falar dessas coisas. Quer um conselho sobre casamento, amiga? Procure outra igual a você! Claro que elas nunca querem conselhos, querem é viver através das nossas histórias o que elas podiam ter experimentado. Só o tempo suficiente de esperarem o homem voltar do churrasco com os amigos e se vangloriar de que também conseguem fazer alguma coisa sem ele. Quero ter mais amigas sapatas, isso sim, elas que sabem como tratar uma dama!

Tudo bem, eu fico com o quadro.

Engraçado como a distância entre aquilo que você pensa que os outros pensam sobre você e aquilo que você queria que os outros pensassem de você é inversamente proporcional aquilo que as outras pessoas de fato pensam sobre você. Ela disse que eu sempre fui meio “maluquinha” e metida à artista. Ledo engano, cara Pietra, não sou maluca, sou a pessoa mais sã e coerente do seu universo. E não é qualquer rabisco que pode ser chamado de arte contemporânea.

Branco e preto: o fundo e os rabiscos. Um quadro indigente, sem nome, sem autor. Uma aquisição apropriada para uma vida despretensiosa. Um complemento para a minha cama insone. Vai ficar no quarto, então.


,entre vírgulas,

Atendimento: Alessandra Boos | Data de entrega: 19/06/10

Servido com: Cerveja

Fernanda Schmidt senta vagarosamente na cadeira de palha, os joelhos ainda doem um pouco por causa da tarde passada, mas não seria apropriado contar ao leitor o que Fernanda fazia na quinta-feira em pleno horário de expediente, ao qual não compareceu, nesse instante ela preferiria estar em casa, esticada confortavelmente no seu sofá de almofadas violetas e ouvindo bossa nova, Vocês viram que o Saramago foi o único escritor em língua portuguesa a ganhar um Nobel, quem perguntava em tom de a coisa mais curiosa do mundo era o Juca, a enciclopédia ambulante, título concedido pelo seu amigo Henrique e não apenas colega do curso, já que se conheciam pelo menos há dez anos, para não alongar a história convém apenas comentar que se conheceram em um festival de música, Mas porque será que mais gente que escreve em português não ganhou, indaga superficialmente Henrique, Fernanda sai do seu devaneio musical e se junta aos colegas, Acho que ganhar um Nobel não significa necessariamente que o cara escreve melhor, sabe, não é parâmetro, tipo que nem o Oscar, vai dizer nem sempre filmes bons ganharam e tem toda uma questão cultural, esses prêmios são feitos para os gringos isso sim, Pode até ser, Fer, mas vai dizer que Jorge Amado não merecia um prêmio desses, ou o Machado de Assis, Concordo em partes, Juca, mas nós temos outros prêmios, como o Camões, só pra quem escreve em português, e hoje tem um incentivo, sabe, ano passado um amigo meu fez uma espécie de oficina de prosa e poesia e no final eles lançaram o próprio livro deles, gratuito e tudo mais, Poxa Fer me avisa se souberes quando tiver essa oficina de novo, tenho interesse, quase suplica Henrique, mas que é uma pena que nenhum brasileiro tenha ganhado algum Nobel isso é; a conversa é interrompida pelo volume da televisão, bem acima da mesa do trio de amigos, o apresentador do jornal anuncia seriamente a morte de José Saramago e imagens de vários momentos da vida do português aparecem na tela, enquanto uma breve biografia é vomitada para o público, em uma mesa distante, dois homens estão sentados tomando uma cerveja, Quem era esse Zé que morreu, pergunta franzindo a testa um deles, Acho que era o técnico da seleção portuguesa de futebol, responde o outro.


uma rodada para o Zé

Atendimento: Alessandra Boos | Data de entrega: 18/06/10

Servido com: Água

Caras e caros frequentadores do nosso buteco,

serviremos este final de semana uma rodada especial (e inteiramente por conta da casa)  em honra a José Saramago, o “Zé”, não é necessário fazer reserva, visto que estamos cada vez mais sós


um lamento

Atendimento: Alessandra Boos | Data de entrega: 27/05/10

Servido com: Aperitivos

Yulunga, Dead can Dance: Escute isso enquanto lê o texto

E chegou um tempo em que não se dançava mais para a terra, não se cuidava do fogo,não se temia o escuro. A pedra fria que antes era aquecida com sacrifícios vermelhos jaz agora anônima coberta por musgo.

O urucum apodrece no pé.

A pele gruda nos ossos e não vira tambor. Os ossos não viram flauta.

Nem lobos, nem coiotes, nem cachorros uivam quando o sol morre.

Eu lamento a noite em que eu te deixei ir embora.

Espírito.


angina

Atendimento: Alessandra Boos | Data de entrega: 23/04/10

Servido com: Aperitivos

A dor

é

um

poderoso anestésico.


Clinomania

Atendimento: Alessandra Boos | Data de entrega: 11/04/10

Servido com: Tequila, Vinho

Sândalo. E essas cortinas púrpuras que balançam ao vento noturno, contrastando com a tua pele quente, a maciez das tuas coxas. Eu quero me deitar aqui e esquecer. Faze-me esquecer. Faze-me esquecer de novo e repetidas vezes. Com suavidade. E mesmo que teus beijos sejam hesitantes e um pouco rasos, eu quero acreditar neles. E mesmo que tu não sussurres aquilo que eu queria te ouvir dizer, eu quero te escutar jurar em vão.

Quando a última luz se apagar, não vai mais importar o que foi dito.

Quando eu dormir de novo eu vou pensar em ti.


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