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A realidade é logo ali

Atendimento: | Data de entrega: 19/05/13

Servido com: Cerveja

Olho para a direita e vejo mais um motorista tentando fazer um cruzamento ilegal. Ele sabe que o local não é adequado, que existe uma rotatória e um viaduto próximos, mas ele insiste em tentar a conversão à esquerda ali, só porque a via nesse trecho é mais larga. Não por acaso, a ilha de segurança não existe mais. Algum motorista imprudente já destruiu.

Olho para a esquerda e me sinto um velho ranzinza, daqueles que ficam falando mal dos “jovens de hoje em dia”. Lembro dos meus tempos de adolescente. Já fiz esporro e sempre fui de falar alto. Mas eu sabia quando calar a boca. Ô pirralho, eu não quero ouvir a tua conversa, não quero saber se aquela guria vai dar ou não pro teu amigo. O Queens of the Stone Age ajuda, mas não resolve.

Olho para a direita e me inspiro a fotografar. O fim de tarde, o ângulo que vejo a Igreja…dá uma bela foto, daquelas com muitos “likes” no Facebook e “coraçãozinhos” no Instagram. Mas o meu celular não deixa eu fazer uma foto boa de tão longe. Eu ainda não tenho uma câmera boa e mesmo se tivesse, não usaria ela ali. Deixa para lá…

Olho para a esquerda e vejo trabalhadores andando ao meu lado. Eles não fazem o que eu faço, não se vestem como eu (eu continuo parecendo um moleque), eles estão cansados e eu me identifico com eles. Apesar dos transtornos no ambiente, eu me sinto a vontade. O Queens continua a me inspirar.

Olho para a direita e vejo uma pessoa mal vestida caminhando em direção a uma comunidade carente. Por que continuamos sendo preconceituosos? Porque tomamos distâncias dessas pessoas? É uma ato quase natural, mas errado. Eles não são os vilões da história, são as vítimas do verdadeiro vilão, aquele que não nos incomodamos em estar perto. Nós achamos aquilo errado e defendemos a mudança, mas não temos coragem para agir.

Olho para a esquerda e o sujeito me reconhece. Eu não conheço ele, mas ele sabe quem eu sou. Estou ficando famoso? Não, o mundo é pequeno demais, só isso. Só espero que ele goste do que eu escrevo, porque nos últimos dias descobri que umas pessoas que eu nem faço ideia falando mal de mim nas redes sociais. Uma triste constatação: eu gosto disso.

Olho para a direita e fico pensando quando terei um carro. Uma coisa é certa: não será nenhum desses que eu estou vendo, até porque, carro para mim é um meio de locomoção e não um desejo de consumo. Mas é em horas como essa que eu lembro que tudo seria mais rápido de tivesse um.

Olho para a esquerda e mudo de ideia. Não é nada bom, nada prático ficar preso dentro de uma lata cheia de motores, enquanto você pode estar apreciando o mundo em sua volta. As necessidades de locomoção motorizada continuam, mas para outras situações, onde a viagem é longa.

Olho para a direita, caminho e mudo de rota. Posso apreciar o fim de tarde/início de noite da Blumenalha Desvairada (sim BlumenALHA, de canalha). Falo tanto mal desta cidade que não consigo deixar de viver nela. Ah, sim, o Queens já acabou. Já estou no Serj Tankian.

O que eu escrevi acima é uma ficção, mas a realidade é logo ali!


Cale a boca e dirija!

Atendimento: | Data de entrega: 30/04/13

Servido com: Whisky

- A história todo mundo já conhece. O marido velho e rico, obcecado com o trabalho e também com ciumes da jovem esposa, contrata um detetive para vigiá-la, acreditando que ela tem um amante. O detetive descobre que ela é inocente, até ter um caso com ela. A mulher o convence a matar o marido para ficarem juntos e com a grana do velho. O detetive faz o serviço sujo e descobre que a mulher já o traíra também denunciando-o para a polícia. Preso, colocando as ideias no lugar, o detetive saca toda armação. O velho apenas fingiu ser assinado para poder fugir do país com a mulher, deixando uma divida gigantesca para trás e um trouxa na cadeia.

- Então? Qual a novidade?

- A novidade é que a dívida seria com a máfia e eles dariam um jeito de tirar o detetive da cadeia, para que ele pudesse encontrar o velho. A máfia colocaria um outro personagem ao lado do detetive, um assassino profissional, e juntos eles viajariam pelo mundo procurando o velho safado e a sedutora mortal.

- É só isso?

- Como assim, “só”? É brilhante! Daria algumas temporadas! Várias locações! Em cada cidade uma nova treta, novos personagens, o passado do velho sendo revirado…

- Eu me referia à corrida! Vinte reais. Só isso?

- Sim! Deu só vinte reais. Eu disse que do hotel até o porto era perto se não passássemos pelo centro!

- Honesto você! Gostei! Toma cinquenta e pode ficar com o troco!

- Oh! Obrigado patrão! Deixa eu abrir o porta-malas eu te ajudo com a bagagem.

- Não precisa. É só uma mala!

- Tem certeza? Ela parecia pesada…

- Tudo bem! Eu já peguei! Obrigado!

- Ok! Eu que agraceço!

E o taxista foi embora. Vendo o passageiro encolhendo no retrovisor, arrastando a pesada mala até o mar, onde a deixou cair, para afundar nas águas do esquecimento.


A volta do morto-vivo

Atendimento: | Data de entrega: 20/03/13

Servido com: Absinto, Aperitivos

caveira

 

 

“When I emerge, my thoughts converge to you”
- Zombie Eaters, by Faith No More

 

Abraçado na terra que me envolve, mergulhado na aridez do esquecimento de meu nome, tua chuva me desperta, me relembra e faz brotar meus braços num parto sepulcral. Renasço da terra e fito cego o céu de teu nascente. Tuas águas me lavam do passado. Fica para trás, naquela cova imunda, naquele útero seco, toda escuridão de meus medos. Ergo-me na dispersão de minhas ideias, na nuvem de tua chuva que se desfaz e clamo vida à luz de teus Sois. Mas tua chama sagrada me responde com a fome de nossa causa, e me devora, me reduz ao carbono solitário, me converte ao pó da insignificância, que se desfaz no último suspiro de meu mais nobre desejo: vida, permita-me amá-la.


Sabá negro

Atendimento: | Data de entrega: 14/02/13

Servido com: Vodka

Transcrição da sessão de hipnose conduzida pela Dra. Butler em 14 de fevereiro de 1970. Prontuário 663-56/70.

(B) O que você está vendo, Toni? Onde você está?
(T) Tem chuva e está escuro… Não sei que lugar é esse, mas é frio, muito frio. Está escuro, mas dá pra ver que as árvores também são escuras e todas retorcidas, uma coisa horrenda. Há pássaros também pretos e empoleirados nos galhos. Alguns estão no chão, escondidos entre as raízes mais grossas, um tronco vazio…
(pequena pausa)
(T) O chão é cinzento, há pedras, folhas, capim alto… capim…flores… flores cor de sangue… parecem papoulas.
(silêncio prolongado)
(B) Toni? Você está aí? Você consegue ver algo mais?
(T) Sim, estou aqui, mas acho que estou tendo uma bad trip… O ácido foi forte aquele dia. Ou era de noite? Eu não tenho certeza… Era coisa boa, disseram que tinha vindo de Ibiza, e por isso eu e o Bill dividimos… Depois o Bill quis mais, ele disse que não dava nem pro cheiro aquele ácido, e…
(tosse)
(engasga)
(enfermeiro Osbourne realiza procedimento para desengasgar o paciente)
(B) Toni… Vamos continuar?
(T) Sim…
(B) Você está sozinho?
(T) Sim. Os outros ficaram por causa do sabá… Eles respeitam o costume.
(B) E por que você não ficou com eles? Você não é judeu também?
(T) Sim, mas eu queria fazer algo… diferente.
(B) Como assim diferente? Explique.
(T) Eu queria ser o cara bacana da turma pelo menos uma vez na minha vida…
(paciente faz uma longa inspiração)
(B) Tudo bem, Toni. Respire, concentre-se e me avise quando estiver pronto novamente.
(longa pausa)
(T) Pronto.
(B) Você me disse que estava em um lugar escuro com árvores escuras e retorcidas, mas que olhou para o chão e nele havia um mato alto. O que você consegue ver através do capim?
(T) O capim nem era tão alto assim. Há uma coisa pegajosa e verde no chão, nas minhas botas, nas pedras e neles…
(B) Neles quem?
(T) Neles…
(B) Neles quem?
(T) Nos coelhos…
(B) Descreva-os para mim.
(T) Eles estão mortos. Estão presos na armadilha, pobrezinhos… Já nasceram mortos.
(B) Como você sabe que eles estão mortos?
(T) Porque está tudo quieto.
(B) E os pássaros que estão nas árvores e no chão? Não fazem barulho? E a chuva?
(T) Os pássaros não querem cantar, eles desviam o olhar dos mortos. A cena é horrível mesmo para eles, acostumados a chafurdar nas vísceras alheias. Mas a chuva continua a cair. E os coelhos mortos.
(B) Você consegue ver mais algum animal?
(T) Um cisne preto. (lacônico)
(B) Onde está o cisne?
(T) No lago. (lacônico)
(B) Como é o lago?
(T) Pequeno e escuro, mas não dá pra ver direito, por causa da névoa que sai dele.
(B) Este lago é o mesmo lago do desenho que você fez quando chegou aqui?
(T) Pode ser…
(B) Por que você não tem certeza?
(T) Por causa da névoa. Está tudo meio branco agora, essa fumaça se espalha muito rápida e está ficando mais e mais escuro, é quase noite.
(B) E se eu dissesse que você consegue ver o que há ao redor do lago porque você tem uma lanterna? O que você vê?
(T) Uma lanterna… Sim, deve ser a lanterna do Bill… Mas eu não sei se eu quero ver o que tem lá. Me dá medo, há algo sinistro no ar, eu não sei explicar, é como se lá fosse mais frio que o resto da floresta, como se o tempo inteiro algo fosse acontecer, um barulho fosse acabar com aquele silêncio todo, alguém fosse chegar… ou morrer… Esse lugar é mal, amaldiçoado, Deus me livre, não volto nunca mais aqui. Por favor, me deixe ir embora!
(B) Mais um pouco, Toni. Você está indo muito bem. Foi mais longe do que na nossa última exploração. Eu sei que você é um rapaz forte e corajoso, e por isso, conseguirá prosseguir. Diga-me o que há perto do lago e iremos embora.
(T) Névoa branca, muito branca e macia, posso senti-la no meu rosto, tocando os meus braços, me envolvendo e me arrepiando todo.
(paciente começa a tremer)
(T) A fumaça se desloca para o alto e vai dar nos pés de uma estátua sem cabeça. Alguém importante que fez algo que ninguém mais lembra. Alguém antigo. A floresta também é antiga, mas maldosa. O mártir é apenas ingênuo. Agora a noite vem, vem como se eu mergulhasse numa cascata de escuridão. A lanterna não está funcionando muito bem, justo agora que eu mais precisava dela. Não sei como vou voltar para o acampamento. Está ficando escuro. Mas veja, mesmo assim, tem uma garota ali. Eu não sei se ela me viu, eu acho que não. Ela fica ali parada, toda de preto, na chuva e no escuro. Agora um sino distante começa a dobrar. A garota sorri. Mas há algo de errado com ela. Não… não… Não pode ser. Meu Deus! Rápido, vamos sair daqui, tem algo de muito errado, ai meu Deus, socorro, me tirem daqui, por favor, me ajudem, por favor…….

(paciente começa a gritar e a repetir os pedidos de ajuda)

(enfermeiro Osbourne tenta conter o paciente, enquanto a doutora Butler tenta fazer o paciente voltar do estado de transe)

(gritos)

(os procedimentos falharam)

_________________
Conto inspirado na capa do álbum de estreia da banda inglesa Black Sabbath.


Papa M1l Gr4u

Atendimento: | Data de entrega: 12/02/13

Servido com: Cerveja

O conto abaixo não é uma ofensa a uma instituição milenar e sim uma brincadeira com os novos tempos e a internet. O Botequim Literário costuma lançar contos sobre assuntos do momento e o noticiário mundial está com as atenções voltadas ao Vaticano. O autor do conto não é ateu e respeita as instituições religiosas. Considera também, sábia a decisão de Bento XVI de renunciar por não “ter mais forças”. Que a Igreja Católica tenha um novo papa com uma visão mais progressista da humanidade.

Salve salve galerinha de Deus. Meu nome de nascença é João Cláudio das Dores Conjugais, mas agora meu nick é Bento XVII, ou Bento Dz7. Sou o mais jovem papa da história, o primeiro com 30 anos de idade.

Sempre fui católico, fiel a Deus, mas a achava os métodos da igreja muito chaaaaaatos. Como fui escolhido para ser o novo papa, resolvi fazer algumas mudanças radicais, que vocês verão a seguir.

Primeira coisa: Wi-Fi. Não tinha wireless na basílica de São Pedro. Ficava muito #chatiado com isso. Mandei comprar cinco roteadores, para o sinal pegar bem em todos os lugares. Como é que eu ia bloggar? Meu tablet não tem entrada com o cabo ethernet.

Segunda coisa: confessionário virtual. A partir de agora, as paróquias podem montar uma página no facebook para os fieis confessarem seus pecados. É mais fácil responder. Os sermões também mudaram. Precisam ter no máximo, 140 caracteres. Nem preciso explicar porquê, não é brow?

O meu antecessor criou o perfil no twitter. E olha que era um senhor de idade. Moderno ele, não? Comigo no comando, temos twitter, facebook, tumblr, linkedin, google+, skype e tudo mais.

Criei uma conta no instagram. Muito bacana. Coloquei umas fotos de hóstias e taças de vinho. A galera tá curtindo muito. Quero bater uma fotos legais aqui do vaticano e compartilhar com vocês.

As missas mudaram também. Mais mais dinâmicas e tal. E são transmitidas ao vivo para o mundo inteiro. Televisão aberta? Para que? Coloquei no YouTube mesmo, com um hangout do Google+.

Mas é isso aí galera. Eu vou indo porque tem coisa pra caramba para fazer. #PARTIU BASÍLICA DE SÃO PEDRO!


Um dia inesquecível

Atendimento: | Data de entrega: 12/02/13

Servido com: Absinto

No dia em que o Bento XVI pediu para sair, um conto com temática religiosa no Botequim Literário.

Relaxem, fanáticos religiosos. Trata-se de um conto de fantasia renascentista, sem referências a instituições religiosas.

———————————

Mike Johnson acordou bem cedo para um dia histórico da sua vida. Nem precisou que os guardas da cidade de Mayserc o chamassem. Estava de pé às 5h30min e após colocar suas velhas e rasgadas roupas de couro, ouviu um barulho vindo da porta do quarto onde estava alojado.

Entre as grossas barras de ferro da porta, uma mão estendeu um pacote feito de couro com restos de comida dentro. Mike pegou o pacote com comida, mas não conseguiu ver quem entregava. O seu quarto possuía apenas uma pequena janela no alto, incapaz de emitir os raios solares até a porta.
Com o pacote, Mike fez a sua refeição matinal. Embora com ânsia de vômito por causa do alimento estragado, o ânimo não alterava. Estava bem humorado e tranqüilo, mesmo sabendo que sua vida mudaria completamente ao final do dia.
Uma hora depois, dois guardas vestidos com armaduras de placas de metal com o leão negro, símbolo do Reino de Asterland, gravado no peito entraram no quarto e algemaram Mike. Ele não tentou evitar.
Eram 7h30min da manhã quando Mike deixou o local onde estava alojado. Ele saiu de uma fortaleza ao sul de Mayserc, sede da Guarda da Cidade e foi colocado dentro de uma carruagem algemado, que seguiu em direção ao centro.
Fazia pouco calor às 8h da manhã quando Mike chegou a Praça da Vitória, em frente à Igreja de Tedahk. Uma multidão lotava o local e procurava o melhor espaço para ver o palco instalado no centro da praça.
Mike chegou na carruagem da Guarda e foi colocado ao lado do palco, junto com outras 10 pessoas algemadas. Um líder de guarda, de barbas brancas, subiu ao palco e anunciou:
- Que comece mais um dia de Julgamento Público.
Os outros 10 algemados foram julgados na Praça da Vitória primeiro. Acusados de roubos, assassinatos, conspiração contra coroa, todos foram sentenciados a morte por aclamação popular. Mike foi o último da lista e quando subiu no palco, um guarda anunciou a acusação.
- Mike Johnson, natural do Vale do Síek, é devoto da Igreja de Tegausyh, grande inimiga da Igreja Oficial de Asterland, do Deus Tedahk. Este indivíduo é o responsável pela tentativa de assassinato ao Sumo Presbítero Phillip Simmons e pela morte dos presbíteros Louis Ferdinand e Jack Woodstock.
Após ler a acusação, a multidão que cercava a praça começou a gritar:
- Forca, forca, forca!
Mike, com a certeza da morte, surpreendeu a população:
- Muito obrigado!
Após a declaração, a Guarda sentenciou Mike a forca. Ele não fez resistências pois sabia que seu objetivo foi cumprido. A morte de dois presbíteros de Tedahk daria um lugar especial no plano da deusa Tegausyh. E graças a decisão dos guardas de fazer o seu julgamento público, toda a capital de Asterland soube dos seus feitos, que encorajariam futuramente outros fiéis da sua religião a fazer o mesmo.

O Carteiro

Atendimento: | Data de entrega: 06/02/13

Servido com: Absinto, Vinho, Vodka

velho

 

O campo estendia-se plano até o horizonte, enfileiradas, milhares de caixas de cartas, lembravam um exército de cores e formas, cobertas e alinhadas, distribuídas alfabeticamente com nomes que nunca se repetiam. O silêncio da madrugada era quebrado com tilintar de rodas enferrujadas da bicicleta do eterno carteiro, que rondava o consciente coletivo da humanidade, recolhendo as palavras que nunca foram ditas e as guardava, em envelopes, nas caixas correspondentes aos nomes daqueles que deveriam ouví-las, mas que por razões diversas, essas palavras realmente nunca lhes foram ditas.

Naquela manhã, que chegava cinza como uma anêmica sombra, o carteiro seguia sua rotina, acostumado com as rotas, sabia quem eram os remetentes e destinatários, mas para sua surpresa, nesta manhã havia uma carta de um remetente ainda desconhecido. Precisou apenas ler o nome, pois os nomes possuem esses poderes, e todo conhecimento necessário lhe foi dado. Imagens lhe vieram à mente, um senhor de idade avançada, recolhido em sua insignificância, num canto abandonado de um mal cuidado lar de idosos. Embrulhado em suas cobertas como um cadáver que aguarda o legista, o velho homem segurava uma foto, amassada e repleta de fita adesiva para segurar as partes rasgadas num passado de frustração e lamentos.

Foi quando a lágrima vagou por suas rugas que a carta se fez na bolsa do carteiro. Do outro lado do envelope, tudo em branco. Não havia destinatário. O velho não recordava o nome daquela que lhe sorria na foto rasgada. E pela primeira vez, desde que o tempo se fez na consciência da humanidade, o carteiro não sabia o que fazer. Obcecado por seu trabalho, não poderia parar, nem perder tempo, precisava descobrir. Na dúvida, errou para mais. Abriu a carta. Ousadia que jamais havia experimentado, mas acreditava que nas palavras algumas pistas lhe fossem fornecidas.

Em vão foi seu crime. Mas não havia o que temer, pois nunca o carteiro precisou prestar satisfações a um superior. Desde sempre ele esteve ali, sozinho, repetindo sua sina. Sina essa agora quebrada pela impossibilidade de seguir em frente. Mas o carteiro já conhecia aquelas palavras, eram tão comuns que não havia ser algum no universo que deixou de ouví-las.

O sábio carteiro então, continuou suas pedaladas, levando sua velha bicicleta por entre as ruas daquele imenso cemitério de ideias e sentimentos, e multiplicando a existência da carta, levou para todos os seres as palavras que todos conheciam e muitas vezes deixavam de dizer e ouvir.

Na carta dizia apenas “eu te amo”.


Minha Arché

Atendimento: | Data de entrega: 04/02/13

Servido com: Absinto, Vinho

Casal

 

Era uma vez um escritor de contos que publicava suas histórias num blog. Ele ficava acordado até altas horas da madrugada com o notebook no colo, sentado na sua cama, ouvindo baladas românticas do Led Zeppelin enquanto dava vida aos seus personagens. O que ninguém sabia era o fato de que ele escrevia apenas para uma pessoa, apesar dos trinta e poucos visitantes diários do seu blog, apenas uma garota precisava ler. Tudo o que escrevia eram indiretas para ela, uma forma sutil de expressar seu afeto

E a frase ficou inacabada.

“Não isso não ficou bom”, disse o autor, coçando a barba, sentindo os fios brancos que nasciam no queixo.

“Quer que eu faça de novo?” perguntou o personagem, “posso mudar de posição, talvez escrever na mesa e não na cama.”

“Talvez…”, respondeu o autor, pensando sozinho. “Vamos tentar novamente sendo menos melosos!”

Era uma vez um escritor de contos, que publicava tudo o que escrevia num blog de literatura. Ele ficava acordado até de madrugada, sentado em sua escrivaninha, digitando seus contos e dando vida aos seus personagens. O que poucos sabiam era o fato de que ele escrevia apenas para impressionar uma garota, expressando seu afeto por ela indiretamente nas palavras

“Não ainda não é isso” reclamou o autor novamente. “Precisamos de algo diferente…”

“Também acho” concordou o personagem, “está um pouco frio, falta sentimento, falta poesia!”

“Sim, é isso! Poesia!” O autor parecia feliz com a ideia. “Caminhe pelo quarto, agarre a caveira de plástico, como Hamlet, e reflita sobre o quanto a vida lhe parece vazia de sentido sem a presença dela.”

“Não achas que estais exagerando?” O personagem não estava gostando do tom sombrio, “Vai ficar gótico isso, macabro até!”

“Verdade! Não estamos desesperados, estamos apaixonados, é bem diferente. Já sei! Esqueça o notebook, vá para a prancheta, pegue umas folhas e lápis, finja que está desenhando!”

Era uma vez um desenhista de histórias em quadrinhos, que publicava tudo o que desenhava em seus perfis nas redes sociais. Ele ficava horas desenhando sem parar, perdia a noção do tempo e quando se dava conta, passara a noite inteira acordado, rabiscando suas fábulas e dando vida ao seus personagens. Todos seus amigos já sabiam que tudo o que desenhava era para impressionar uma garota, que por sua vez, fingia não perceber que era ela retratada ali em traços simples

“Ficou melhor?” perguntou o autor para o personagem.

“Eu estou gostando!” respondeu sorrindo, “Me lembrou um pouco Ricardo Azevedo, em Um Homem no Sotão!”

“Perfeito, adoro esse livro! Agora, vamos continuar!”


A garota que não parava de ler

Atendimento: | Data de entrega: 31/01/13

Servido com: Cerveja

Quando eu tinha seis anos, meu pai foi ao mercado e quando voltou, colocou em cima da mesa uma latinha com rótulo colorido. Como eu tentava ler tudo que via, estiquei logo as mãozinhas e puxei para mim a novidade, estava escrito: achocolatado em pó. Fiz uma careta. Era o procedimento padrão: nunca experimentar comidas novas e muito menos, bebidas com nomes estranhos. Mas dessa vez não foi difícil para os meus pais me convencerem a tomar aquele líquido cheiroso e cremoso, feito de chocolate. Era só uma questão de explicar aquele nome feio na latinha. E não é que era bom?

A mania de ler tudo não desgrudou de mim tão fácil quanto o sucesso de meus pais a me convencerem, com o passar do tempo, a tentar comer isso e aquilo. As primeiras leituras “mais substanciosas”, digamos, foram os gibis da Turma da Mônica e logo depois os livrinhos infanto-juvenis. Quando eu tinha onze anos me tornei sócia da biblioteca municipal da minha cidade natal. Eu já gostava muito de livros nessa época, mas o principal motivo por eu ter me afiliado era bem prático: minha irmã fazia aula de dança na Escolinha de Artes ali do lado e eu tinha que esperá-la junto com a minha mãe durante uma hora, duas vezes por semana. Assim, eu pegava um livro na terça e devolvia na quinta. Na quinta eu pegava outro e devolvia na semana seguinte. A partir de algum momento eu comecei a pegar dois livros na quinta-feira e às vezes três.

Com o passar dos anos tive que diminuir o meu ritmo de leitura; tudo bem, os livros estavam mais complexos e compridos agora, mas quando se tem uma lista deles já escolhida e que tem que ser lida até o dia combinado, parece que fica mais chato, não parece? Concessões também foram feitas na mesa, tomate cru já podia ser comido sem cara feia e chocolate com leite frio era permitido no verão.

Entrei na faculdade, e não foi de Letras e nem de Nutrição, que fique claro, mas de Ciências Biológicas. Mesmo assim, a experimentação com os livros e com a comida continuava: bacalhau ao molho de Saramago, sobremesa de vinho com Poe e Anne Rice, penne ao funghi e Lovecraft, salada de Franz Kafka com Umberto Eco e até lembas do Tolkien. O que não desceu bem foi uma tal vodka Dostoiévski, muito amarga e que deu uma ressaca daquelas.

Por fim, após terminar a faculdade e sobreviver a algumas ressacas e congestões ̶ literárias e culinárias ̶ vim para Porto Alegre fazer mestrado em paleontologia; não resisti e também me inscrevi nesta disciplina do curso de Letras*, pensando em trazer novos temperos para os meus textos acadêmicos e literários. Ainda não cedi totalmente aos supostos encantos da cozinha gaúcha, mas já aprecio um mate acompanhado de um conto do Caio Fernando Abreu!

____________________
*sim, isso foi um texto produzido em uma aula de “Leitura e Produção Textual” em 2010, cuja proposta do primeiro encontro era criar um texto em que @s alun@s se apresentassem à turma.


Flashbacks

Atendimento: | Data de entrega: 17/01/13

Servido com: Cachaça

O gosto de vômito na boca foi a primeira sensação do dia de Heriberto. Acordou cuspindo uma substância colorida, que misturava saliva e o que restou da noite anterior. A forte dor de cabeça seria o fato seguinte, caracterizando uma clássica ressaca, no entanto, a presença de sangue na boca deixou o jovem mais preocupado. Passou a mão no rosto e percebeu sangue também no nariz.

Somente após saber que acordava de uma ressaca que Heriberto percebeu onde estava. A calçada era de paver amarelo, a estrada, asfaltada. Em sua frente, um muro de três metros de altura e uma porta de madeira maciça, sofisticada, sem nenhuma identificação. Ao seu lado, um revólver e uma garrafa de plástico da cachaça Teimosinha pela metade.

O jovem levantou-se rápido, preocupado. Não sabia onde estava, nem o que havia ocorrido na noite anterior. Cervejeiro artesanal, Heriberto não costuma ingerir bebidas destiladas. Mas aquela dor de cabeça indicava uma bebedeira histórica na na noite anterior.

Olhou para toda a rua e viu um deserto. Nenhuma alma viva perambulava pela estrada. Será que hoje é feriado? Domingo? Que rua era essa? Será que Heriberto estava em sua cidade? Nenhum comércio ao longo da via, apenas um orelhão pixado, contendo a marca da operadora de sua cidade, um sinal que não deveria estar muito longe.

Decidiu, então, pegar a cachaça na mão e sentiu um cheiro estranho vindo da garrafa da teimosinha. Um odor que se misturava ao álcool.

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A senhora que atendia no posto de conveniência do posto de gasolina levou mais de 10 minutos para fazer a conta. Não era por menos. A atendente tinha dificuldades com a matemática e os jovens decidiram pagar uma compra de R$ 83 em moedas e notas de R$ 2 e R$ 5. Eles estavam em oito pessoas e cada um queria pagar a sua bebida, com um ajudando o outro.

- Tu vai pagar e tomar essa merda sozinho, seu retardado – disse Heriberto para Souza – Ninguém vai te carregar de novo, já estamos avisando.

- Para onde nós estamos indo, a Teimosinha é um kit de sobrevivência. Vai por mim, eu sei o que estou fazendo – respondeu Souza.

Heriberto, Souza e seus seis amigos pagaram as contas no posto e foram em direção ao estacionamento. O sol já havia deixado a cidade e o grupo decidiria qual seria a festa. Duas propostas foram colocadas na conversa. Um tradicional bar da cidade ou a ideia de Souza, considerada arriscada.

- Vamos na mansão dela. A gente entra lá e tal. Se for chato, vamos embora. Mas façamos uma tentativa – argumentou Souza.

- Ela não vai dar para ti, coloca isso na tua cabeça – provocou Heriberto – mas se queres ir mesmo tentar, tudo bem, eu apoio.

Souza foi o vencedor e o grupo de amigos optou pela proposta arriscada. Saíram em dois carros do posto de gasolina rumo a tal mansão. Heriberto e Souza foram no banco de trás, onde o primeiro abriu a garrafa de cachaça e, com o vidro aberto e o braço para fora, começou a beber e provocar quem estivesse na rua.

Entre um gole e outro, a pinga caia na sua roupa. Mas quando o motorista fez uma conversão à esquerda de forma brusca, o líquido precioso do jovem apaixonado foi em direção do colega, que detestava os aguardentes de cana.

- Foi mal aê, Beto – se desculpou Souza.

- Se derramares novamente essa merda, eu vou enfiar a garrafa no teu… – respondeu Heriberto.

CONTINUA


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