17 de março de 2012
Fantasia de Carnaval
Servido por - com Absinto, Vinho, VodkaEu me levantei e abri as portas do guarda-roupa, aquelas roupas não pertenciam a mim, não tinham nada a ver comigo, não diziam nada sobre mim. Olhei os sapatos e também não faziam sentido pra mim. Tomei um banho de água bem quente, mas o sabonete tinha acabado. Acho que não iam se importar se eu pegasse emprestado um pouco desse outro aqui. Usei as roupas que achei mais familiares, peguei uma sacola grande e meti ali dentro todo o resto, exceto duas calças e uma blusa. Alguém me disse que era bom ter mais blusas porque calça a gente podia usar mais vezes, mas a blusa tinha que trocar todo o dia. Mas achei que as calças eram mais minhas do que aquelas blusas. Então peguei as duas calças e só uma blusa. Desci as escadas do prédio e quando começava a caminhar pela avenida, alguém me parou para me vender poemas. Comprei todos e ainda lhe entreguei o saco com as roupas. Percorri a descida num passo vagaroso e vi passar por mim ônibus, rostos, táxis coloridos, árvores e preocupações. Continuei a andar ainda por muito tempo e parei na frente de um prédio largo e antigo. Apertei o interfone. Sinal para entrar. Seu Isaac parecia surpreso, talvez confuso com a minha visita. Mas me serviu chá. E eu lhe servi uma música ao piano. Nós não conversávamos muito, porque não tínhamos sobre o que falar e nunca fomos íntimos. Sozinho. Muito sozinho. As fotos ainda repousavam sobre a mesinha de centro, assim como a sua esposa repousava no cemitério há dois anos. Lavei as xícaras. Fui embora, pegando emprestado um pouco da solidão dele. Ao chegar à rua precisei desviar de algumas pessoas que formavam um amontoado de pompons, lantejoulas e pernas. Foi quando deixei cair os poemas que levava comigo. Uma figura toda em verde, retardatária do grupo brilhante mais à frente percebeu antes do que eu a queda e recolheu aquelas folhas, como gentilmente se recolhe um pequeno pássaro que caiu no chão. Falta gentileza no mundo. As pessoas precisam ser mais gentis umas com as outras. Quantos momentos de gentileza eu havia presenciado recentemente? Verde, a cor de São Patrício. A cor de Oxóssi. Kiss me I´m Irish. Okê arô! O estranho é irresistível, é promessa, é hipnótico. Eu beijaria aquela pessoa desconhecida, entraria em um ônibus sem olhar o destino e talvez não pagasse a passagem. E nesse destino que eu parasse, iria a um lugar bonito e desconhecido, onde eu brincaria com um cachorrinho de rua que ali encontrasse, compraria uma comida e dividiria igualmente com ele, caminharia um pouco, conversaria com os velhos e os bêbados, talvez até jogasse um jogo de cartas com eles ou outro jogo nada a ver e se um deles me oferecesse um lugar para passar a noite, eu aceitaria a sua bondade, diria que não tenho nada e nem ninguém, nem mesmo esse cachorro, dormiria e acordaria. Eu me levantaria, abriria as portas do guarda-roupa, e todas aquelas roupas e sapatos se ajustariam ao meu corpo, as cores exatas, o formato bem proporcionado, elas davam conta até do estado dos meus ânimos, quando eles estivessem elevados, elas cintilariam e quando estivessem em estado de retidão, ficariam em tons de cinza. O banho seria de banheira numa abundância de óleo e espuma, não haveria frascos suficientes para guardar tantos perfumes. Ninguém diria uma palavra, que dirá conselhos. Eu subiria até o terraço e lá ficaria lendo poemas a tarde inteira. Quando a campainha tocasse, Isaac e sua esposa também subiriam e comeríamos pedaços de torta com as mãos. Rindo e conversando como amigos muito próximos, assistiríamos ao morrer do sol, enquanto um gato sorrateiramente pularia sobre a mesa e comeria as sobras. E nisso, lá de cima, a gente enxergaria várias pessoas dançando e cantando, todas juntas, ninguém ficou para trás. E a alegria deles era boa de olhar e por isso entrava pelos olhos da gente. E uma vontade de se juntar a eles surgiria. Uma vontade irresistível, hipnótica e promissora. Não há desconhecidos, somos feitos da mesma matéria e sonhos, escutamos as mesmas músicas, acreditamos nos mesmos deuses, falamos as mesmas línguas, pensamos os mesmos pensamentos, amamos com o mesmo ardor. E eu saltaria e o meu salto se transformaria em um vôo. E eu pousaria bem na tua frente, tu vestido de preto. Mas tu me olharias e não pareceria nenhum um pouco surpreso, só dirias: por que tens medo? Não és tu criadora disso tudo? E nos beijaríamos, um beijo seco, mas duradouro.
